Augusto chegou à delegacia pouco depois da meia-noite. As luzes do corredor estavam acesas só na metade. Ele carregava duas xícaras de café frio e uma chave que não usava havia anos. O que ele procurava estava guardado no fundo de um arquivo que ninguém abria mais.
A pasta amarelada
Ele puxou a gaveta de baixo. O cheiro de papel velho subiu de uma hora. A pasta estava mais gasta que as outras, a borda rasgada e um elástico que se partiu ao toque. Dentro havia um relatório datilografado e uma foto partida ao meio. Augusto reconheceu a própria letra na margem.
Ele sabia o que significava aquela foto. Tinha ajudado a tirar o nome de um colega de uma investigação de propina. Na época disse a si mesmo que era para proteger a corporação. Agora via que era para salvar a própria vaga.
O que Diego contou a Rafael
Do outro lado da cidade, Rafael lia a mensagem que Diego mandara por voz. A gravação era curta. Diego falava baixo, quase rindo. “Seu sogro enterrou um caso antigo pra não cair. Tem foto e tudo. Se quiser a prova, eu passo.” Rafael desligou o aparelho e ficou olhando o teto do quarto. Ele não queria usar aquilo contra Júlia. Mas a informação era pesada demais para ignorar.
Ele guardou o celular no bolso sem responder. A cozinha ainda tinha a luz acesa. Júlia dormia no quarto ao lado, a mão sobre a barriga. Rafael pensou em ligar para ela, mas deixou o telefone na mesa.
O segredo do delegado
Augusto fechou a pasta e ficou sentado no chão do arquivo. A culpa não era nova, só tinha sido esquecida. Ele sempre cobrou honestidade dos outros e agora via que a regra não valera para si. O celular vibrou uma vez. Era uma mensagem de um número desconhecido: “Já sabe quem mudou os dados? Pergunte pro seu genro.”
Ele não respondeu. Guardou a pasta debaixo do braço e saiu da sala. A delegacia estava vazia. No caminho para casa, parou em um sinal e olhou a foto rasgada outra vez. A imagem-símbolo de tudo que ele tentara esconder.
Júlia acordou cedo. O pai tinha deixado a porta do escritório entreaberta. Ela entrou para pegar um envelope que ele prometera deixar. No meio da mesa encontrou a pasta amarelada. Abriu sem pensar duas vezes. A foto rasgada caiu no chão. Júlia pegou os dois pedaços e juntou. Reconheceu o rosto do pai ao lado de um homem que já tinha visto em reportagens antigas sobre corrupção na polícia.
