Kelly estava terminando de passar os últimos itens quando Tatiana parou na frente do caixa. A fila já era longa, as pessoas trocavam olhares impacientes. Cinco moedas caíram no chão com um barulho seco. O que Kelly ainda não sabia era que o pior daquele dia ia aparecer só mais tarde, nos fundos do mercado.
A fila que parou no meio-dia
Tatiana ficou ali, esperando. Kelly olhou rápido para o relógio. Faltavam vinte minutos para o fim do expediente e ela precisava do dinheiro do mês inteiro. A voz de Tatiana saiu baixa, mas deu pra ouvir na primeira fileira.
Cata aí, querida. É pra isso que você serve.
Kelly sentiu o rosto quente. Matheus, que estava na fila com a mãe, desviou o olhar. Dona Rosa apertou a bolsa contra o peito. Kelly se abaixou, pegou as moedas uma por uma e devolveu sem dizer nada. O caixa apitou o total. Tatiana pagou sem olhar para ela.
O que ela guardava no caderno
Quando o movimento caiu, Kelly abriu a gaveta do caixa só o suficiente para conferir. As diferenças vinham aparecendo há semanas, sempre nos mesmos dias. Ela anotava tudo num caderno velho que guardava dentro da bolsa. Não era distração dela, tinha certeza. Mas nunca conseguia provar.
Valdir passou por ali duas vezes. Na segunda, parou perto do fundo, perto da porta dos fundos. Kelly fingiu que contava troco.
Nos fundos do mercado
Depois do expediente, Kelly foi guardar o avental. Do corredor dos fundos dava pra ver a sala pequena onde Valdir guardava o dinheiro do dia. Ele abriu uma gaveta, tirou algumas notas e enfiou no bolso da calça. Fechou rápido. Não olhou para trás. Kelly ficou parada, o caderno ainda na mão.
Ela abriu o caderno ali mesmo, na luz fraca. As datas batiam com os dias em que Valdir ficava mais tempo na sala. As diferenças não eram grandes, mas seguiam um jeito que não parecia erro de caixa. Era sempre a mesma quantia faltando depois que ele conferia. Kelly fechou o caderno. O barulho da porta dos fundos se abrindo fez ela guardar tudo depressa.
