Larissa chegou cedo ao salão reformado. A luz da manhã batia na mesa simples perto da janela, com uma folha verde ao lado de duas taças vazias. Meses depois do escândalo, o Restaurante Laranjeira voltava a abrir as portas, agora com ela como sócia. Ela ainda não sabia que a maior mudança daquele dia não seria a reforma.
A reabertura depois do golpe
Madalena já estava na cozinha, verificando panelas com o mesmo jeito de sempre, só que mais quieta. Ela tinha respondido pelo que fez no passado e voltado ao trabalho. Banâncio ajudava a arrumar as cadeiras, falando baixo sobre o serviço de eventos que planejava abrir sozinho. Larissa observava tudo em silêncio, sentindo o peso de não esconder mais nada.
Os primeiros clientes entraram devagar. Alguns comentavam sobre o que tinha acontecido com Abacácio, mas ninguém prolongava o assunto. A vida real voltava aos poucos, sem grandes discursos. Larissa conferia os pedidos e via Banâncio passar perto dela, trocando olhares que já não precisavam de explicação.
A decisão que não dava mais para adiar
Durante o almoço, Larissa parou perto da mesa da janela. A folha verde ainda estava lá, pequena e simples. Ela pensou em todos os meses de segredo, na diferença de idade, na posição dele como garçom e a dela como sócia. Nada disso parecia mais importante que o cansaço de fingir.
Banâncio se aproximou com dois copos de água. É aqui que a gente senta? ele perguntou baixo. Larissa assentiu. Ela já desconfiava que as conversas começariam logo, mas não aguentava mais guardar a relação só para proteger aparências.
— Passei tanto tempo defendendo a aparência deste lugar que quase perdi a coragem de viver a minha própria vida.
A frase saiu sem esforço. Banâncio puxou a cadeira e sentou. Pela primeira vez, não havia disfarce. Alguns funcionários olharam de canto de olho. Um cliente mais velho murmurou algo para a acompanhante, mas o som do talher contra o prato cobriu o resto.
Uma mesa para dois
No fim da tarde, o salão já estava mais cheio. Madalena saiu da cozinha para trazer o prato deles e deixou um sorriso rápido antes de voltar. Larissa e Banâncio comeram devagar, falando de planos simples: o negócio dele, as contas do restaurante, o que fariam no fim de semana. Nenhum segredo valia mais que aquilo.
Quando o dia acabou, Larissa fechou a caixa registradora sentindo o cansaço bom de quem parou de carregar peso desnecessário. O restaurante seguia em frente, agora sem máscaras. Banâncio esperava perto da porta, e os dois saíram juntos sob a luz que ainda entrava pela janela.
