Henrique parou na calçada em frente à casa da mãe e deixou os braços caídos ao lado do corpo. Ele tinha combinado com Otávio de ir sozinho, mas a conversa não estava saindo como imaginava. Só depois, quando o portão se fechou, é que ele percebeu que algo tinha mudado de verdade entre eles.
A calçada em frente à casa
Dona Lúcia saiu devagar, secando as mãos no avental. Henrique ficou ali, esperando que ela dissesse alguma coisa primeiro. O sol da tarde batia forte na calçada e nenhum dos dois se mexeu por um instante.
— Eu vim porque preciso que você confirme uma coisa pras pessoas — disse ele, olhando para o lado. — Que eu sempre te ajudei. Depois do que aconteceu com a Camila, isso importa.
Lúcia não respondeu de imediato. Ela só observou o filho, como se tentasse entender de onde tinha vindo aquela exigência.
Os documentos que Otávio trouxe
Otávio apareceu logo depois, com uma pasta fina na mão. Henrique franziu a testa ao ver o homem se aproximando. Otávio entregou os papéis sem muita explicação e ficou um pouco atrás, só observando.
— Isso aqui é antigo — falou Otávio. — Da época em que você precisava de dinheiro pro primeiro negócio.
Henrique abriu a pasta e leu devagar. O nome da mãe estava ali, junto com a venda do único imóvel que ela tinha. Ele ergueu o olhar, confuso e irritado ao mesmo tempo.
— Vocês esconderam isso de mim esse tempo todo? — perguntou, a voz mais baixa. — Pra me fazer parecer ingrato?
A frase que ela guardava
Lúcia deu um passo à frente e parou perto do portão. Henrique esperava um pedido de desculpas ou uma explicação longa. Em vez disso, ela falou baixo, mas sem hesitar.
Eu não quero que você me devolva dinheiro, Henrique; eu quero que pare de me devolver vergonha.
O silêncio que veio depois foi pesado. Henrique apertou a pasta com mais força, mas não encontrou palavras para responder. Otávio olhou para o chão, como quem sabe que não tem mais nada a acrescentar.
Lúcia segurou o portão com uma mão e começou a fechá-lo devagar. Henrique deu meio passo à frente, mas parou quando viu que ela não ia esperar. O abraço que ele achava que ia acontecer simplesmente não aconteceu.
Ela trancou o portão sem olhar para trás. Henrique ficou na calçada, sozinho, com os documentos ainda na mão. Ele pensou em ligar para Rafael mais tarde, mas por enquanto só conseguia ficar ali, tentando entender o que exatamente tinha perdido no meio daquela conversa.
