Amora empurrou a porta pesada do cartório antigo e sentiu o cheiro de papel velho misturado com poeira. Ela carregava a metade da foto que Dona Melancia tinha guardado por décadas. O que ela ainda não sabia era que a busca pelos papéis da mãe ia acabar trazendo um nome que ninguém esperava encontrar ali.
Entre os livros de capa grossa
O tabelião aposentado, um homem baixo de óculos redondos, demorou para achar o registro certo. Ele folheou pastas amareladas enquanto Amora esperava de pé, sem sentar. Quando finalmente abriu o livro grande, o dedo dele parou numa linha escrita à mão. O nome da mãe dela aparecia como dona original da gleba que viraria o Bairro Nobre.
Amora leu em silêncio. O coração batia mais rápido, mas ela não disse nada ainda. Só apontou para o carimbo que faltava.
A pressão no balcão
A porta se abriu de novo e Uvaldo entrou devagar, apoiado na bengala. Ele olhou para o registro aberto e depois para o tabelião. A voz dele saiu baixa, quase cordial, mas carregava aviso.
— Esse documento é antigo demais. Melhor não mexer no que já foi resolvido há anos.
O tabelião olhou para Amora, depois para Uvaldo. Suas mãos tremiam um pouco ao fechar o livro. Amora sentiu o olhar dele pesar sobre ela como se pedisse desculpa sem falar.
O carimbo vermelho
Uvaldo se aproximou do balcão e falou direto com o tabelião, ignorando Amora por um instante.
Você passou a vida chamando Amora de invasora dentro da terra que pertencia à família dela.
O tabelião respirou fundo. Ele abriu o livro outra vez, pegou o carimbo vermelho que estava na gaveta e bateu com força sobre a página. A tinta marcou “contestável”. Depois, sem olhar para Uvaldo, ele falou baixo:
— Existe uma segunda via autenticada. Está guardada no cofre da antiga associação da vila desde que os papéis originais sumiram.
Amora ficou parada, olhando o carimbo fresco secar. Ela não sorriu, mas sentiu algo mudar dentro do peito. Uvaldo apertou a bengala com mais força. O tabelião guardou o livro sem dizer mais nada, como quem já tinha falado demais por um dia.
