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Podre Por Dentro — Capítulo 7: A mãe sabia de tudo

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Amora confrontou Dona Melancia na barraca e descobriu que a mãe adotiva escondia cartas sobre o passado da mãe biológica. A foto que ganhou no final mudou tudo.

Amora parou na entrada da barraca, o cheiro de manga madura misturado com o suor do dia. Ela segurava as cartas dobradas na mão, aquelas que encontrara no fundo da caixa velha. O que ela ainda não sabia era que a pior parte daquela conversa nem tinha começado.

O segredo da mãe na feira

Dona Melancia estava atrás do balcão, separando jabuticabas. Olhou para a filha de criação e parou no meio do gesto. O ar entre elas ficou pesado de repente, como se a barraca inteira soubesse que algo ia mudar.

— Você mexeu nas minhas coisas — disse a mulher, a voz baixa.

Amora estendeu as cartas. Eu já desconfiava que tinha mais, pensou, mas não falou. Só esperou.

A fotografia rasgada ao meio

Dona Melancia limpou as mãos no avental antes de pegar os papéis. As cartas eram antigas, papel amarelado, tinta já desbotada. Numa delas havia uma foto cortada no meio, só se via metade de um rosto de mulher jovem.

— Sua mãe não era só uma feirante qualquer — começou ela. — Ela tinha direito sobre aquela terra do Bairro Nobre. Uvaldo comprou o silêncio de quem sabia.

Amora sentiu o peito apertar. Três décadas guardando isso. A mulher que a criou, que lhe deu comida e cama, escondera a origem dela o tempo todo.

A verdade que ela não queria ouvir

— Eu protegi você — continuou Dona Melancia, a voz embargada. — Eles iam te esmagar se soubessem quem você era de verdade. Eu vi o que fizeram com sua mãe.

Amora balançou a cabeça. Proteger não era o mesmo que mentir. Ela queria a história inteira, sem pedaços faltando. A gravação que Abacatão conseguira na mansão citava o nome da mãe dela, mas ainda faltava o que unia tudo.

Você me protegeu tanto da verdade que também me roubou o direito de escolher.

Dona Melancia ficou em silêncio por um tempo longo. Depois abriu a gaveta de baixo e tirou o outro pedaço da fotografia. Colou os dois lados na mesa. Do outro lado da imagem aparecia Uvaldo, mais jovem, ao lado da mãe de Amora, os dois em frente a uma cerca que já não existia.

Amora olhou o rosto do homem rico e sentiu algo se mexer dentro dela. As terras onde ele construíra seu império eram da família dela. Ela precisava ver os registros. No fim da tarde, antes de fechar a barraca, Dona Melancia mencionou que existia uma segunda via daqueles papéis guardada no cofre da antiga associação da vila. Amora guardou a foto inteira no bolso e saiu em direção ao centro antigo da cidade.