Sérgio parou na calçada em frente ao prédio recém-pronto. O sol já baixava, pintando as paredes de laranja. Ele segurava a caixa de vidro com a colher velha de pedreiro dentro. O que ele ainda não sabia era que aquela conversa no fim da tarde ia decidir tudo.
O prédio que ele construiu
Tati chegou primeiro. Vinha de carro, bem vestida, como sempre. Parou a uns passos dele e ficou olhando o prédio por um tempo.
— Eu vi a foto no jornal — disse ela. — Queria te falar que fico feliz por você.
Sérgio não respondeu de imediato. Colocou a caixa no banco da praça ali perto e sentou. O cansaço dos últimos anos ainda pesava nos ombros, mas agora era diferente.
A recusa sem briga
Tati se aproximou. Falou baixo, quase pedindo.
— A gente podia tentar de novo. As meninas estão bem, mas a casa fica melhor com todo mundo junto.
Ele balançou a cabeça devagar.
— Eu não fiquei rico quando ganhei a construtora. Fiquei rico quando parei de aceitar uma vida onde eu valia tão pouco.
As palavras saíram calmas. Sem raiva. Tati ficou em silêncio. Não chorou, só olhou para o chão. Ele continuou:
— Vou continuar vendo as meninas toda semana. Elas não vão sentir falta de pai. Mas a gente não volta.
Ela assentiu. Virou e foi embora sem dizer mais nada. O carro sumiu na rua.
A conversa que faltava
Roberta apareceu minutos depois. Vinha do canteiro, ainda com o capacete na mão. Parou do lado dele sem sentar.
— Eu não quis atrapalhar — disse ela. — Mas vi a Tati saindo.
Sérgio olhou para a caixa de vidro.
— Ela veio pedir pra voltar. Eu recusei. Agora sinto que posso falar o que quero.
Roberta ficou quieta. Ele continuou:
— Queria saber se você ainda acha que tem algo aqui. Eu só agora me sinto livre pra descobrir.
Ela sorriu de leve, quase tímida.
— Eu também queria descobrir.
Em casa
Quando chegou, já estava escuro. A casa nova cheirava a comida pronta. Lara e Bia correram até a porta. O capacete de mestre de obras ficou nas mãos delas, virando brinquedo.
Sérgio sentou na mesa. O prato fumegava. Pela primeira vez em muito tempo, ele não carregava o peso de ter que aceitar migalhas. Só o calor da comida e o barulho das filhas ao redor.
