Caio voltou à cafeteria depois do horário de fechamento. O lugar estava quieto, só o som do ventilador velho no canto. Ele precisava pegar os documentos que Fifi cobrava, mas não esperava encontrar nada além de papéis velhos. O que ele ainda não sabia era que aquela busca ia colocar um peso novo nas costas dele.
A cozinha vazia
Bel já tinha ido embora. Tião trancou a porta da frente e saiu resmungando sobre as contas do dia. Caio ficou sozinho, andando entre as mesas com o celular na mão. Ele abriu a porta da cozinha e viu a pia limpa, os panos dobrados. Nada de especial. Até que resolveu olhar atrás do armário velho que Bel sempre reclamava de mover.
Algo caiu no chão quando ele puxou a mobília. Um envelope amarelado, marcado por poeira. Caio pegou, virou nas mãos e sentiu o peso leve de uma folha dobrada lá dentro.
O envelope atrás do armário
Ele rasgou o papel com cuidado. Dentro tinha uma cópia parcial de um recibo antigo. O pai de Fifi aparecia recebendo dinheiro pela parte do imóvel. O valor estava ali, a data também, mas faltava a assinatura final que tornaria tudo oficial. Caio leu duas vezes. Isso mudava o jogo, pensou. Bel tinha razão desde o começo.
Ele guardou o envelope no bolso do paletó. O coração batia mais rápido. Fifi pagava bem, o escritório contava com ele para fechar o caso. Se entregasse isso agora, tudo ia por água abaixo. A carreira dele dependia de não falar nada.
Eu não posso mostrar isso pra ninguém ainda.
Caio saiu da cozinha com o passo lento. Bel estava na calçada do outro lado da rua, conversando com Dona Zezé. Ele parou um segundo, viu o sorriso cansado dela e sentiu o gosto ruim na boca. Ele queria proteger a cafeteria, mas não sabia como fazer isso sem perder o próprio emprego.
O peso que ele decidiu carregar
De volta ao carro, Caio olhou o envelope de novo. O recibo parcial confirmava que o pai de Fifi vendeu a parte dele. Sem a assinatura, ainda era só uma cópia. Mas era prova suficiente pra mostrar que Fifi mentia sobre o direito ao imóvel. Ele fechou os olhos. Se contar pra Bel, ela vai confiar nele. Se não contar, Fifi continua pressionando.
Ele guardou o envelope no porta-luvas e ligou o motor. A culpa já começava a apertar o peito, mas a decisão estava tomada. Caio ia continuar do lado de Fifi, pelo menos por enquanto. O que ele não contava era que Bel ia descobrir sozinha que ele sabia de algo importante. E que o silêncio dele ia custar mais do que ele imaginava.
