Lena acordou de madrugada com a boca seca. A casa estava em silêncio, só o barulho da geladeira. Ela precisava pegar a caixa antes que Beto acordasse. O que ela ainda não sabia era que a pior parte daquela noite estava prestes a começar.
A luz da geladeira
Ela desceu descalça, evitando os degraus que rangiam. Na cozinha escura, abriu a porta da geladeira devagar. A luz branca caiu sobre a caixa de Mounjaro escondida atrás do leite. Lena pegou o frasco com cuidado, sentindo o peso na mão.
Quando fechou a porta, Beto estava ali. Ele não disse nada no primeiro segundo. Só olhou para a caixa e depois para ela.
A confissão que não dava mais para guardar
— O que é isso? — perguntou Beto, a voz baixa.
Lena sentiu as pernas moles. Tentou guardar o frasco de volta, mas ele já tinha visto. Ficaram os dois parados, o ar da cozinha frio batendo nas pernas.
— Eu comecei há três semanas — ela falou por fim. — Não contei porque sabia que você ia achar ruim.
Eu não queria ser mais magra que você, eu só não queria ser a mulher que você deixaria para trás.
Beto encostou na pia. A frase ficou no ar como um corte. Ele respirou fundo, mas não conseguiu engolir a raiva que subia.
— Você mentiu pra mim todos os dias — disse ele. — Todo dia que eu perguntava se estava tudo bem.
Lena encostou as costas na geladeira. As lágrimas vieram rápido, mas ela não limpou.
A porta que bateu
Beto pegou o casaco do encosto da cadeira. Não gritou. Só falou que precisava sair. Lena ficou parada, vendo ele abrir a porta da frente e fechar sem olhar para trás.
Fora, a rua estava vazia. Beto andou até o carro, ligou o motor e seguiu sem destino certo. A única pessoa que ele conseguia pensar em procurar era Mayra. Ela sempre tinha uma palavra, um jeito de fazer ele se sentir menos perdido. Quando parou o carro perto do prédio dela, já eram quase cinco da manhã. Ele ficou no banco, olhando para o prédio escuro, sabendo que uma ligação agora mudaria tudo.
