Beto saiu de casa ainda com a voz de Lena ecoando na cabeça. O carro dele parou num estacionamento vazio atrás do salão de eventos. Uma taça plástica quebrada no chão refletia a luz do poste.
A saída que ele procurava
Mayra estava encostada no carro dela, já sabendo que ele viria. Beto desceu devagar, as mãos no bolso do casaco. Ela sorriu sem pressa.
— Eu não tinha pra onde ir — ele disse. A frase saiu baixa.
Mayra deu de ombros. — Você sempre tem pra onde ir. Só não quer admitir.
Eles ficaram ali uns minutos falando da lanchonete, da briga, do que Lena tinha escondido. Beto não queria entrar em detalhes, mas Mayra puxava devagar. Ele sentiu que ela escutava de verdade. O que ele ainda não sabia era que aquele silêncio entre eles não ia durar muito tempo.
A conversa que virou outra coisa
Mayra se aproximou um passo. — Você mudou por fora, Beto. Mas por dentro ainda pede a mesma coisa que sempre pediu.
— O quê? — ele perguntou, sem conseguir desviar o olhar.
— Ser visto. Ser elogiado. Ela não consegue te dar isso agora.
Beto sentiu o peito apertar. Mayra tocou o braço dele, leve. Depois subiu a mão até o rosto. O beijo veio sem aviso. Ele correspondeu por alguns segundos, a boca dela quente, o gosto de chiclete de menta. Depois afastou, ofegante.
Você não está apaixonado por mim, Beto, está apaixonado pela maneira como eu faço você se sentir.
Ele ficou olhando para o chão. A taça quebrada estava ali, perto do pé dele.
O registro que ninguém viu
Mayra não insistiu. Guardou o telefone no bolso e disse que precisava ir. Beto voltou pro carro, ligou o motor e ficou ali mais um tempo. Não sabia o que ia falar pra Lena quando voltasse. Não sabia se ia voltar.
Do outro lado do estacionamento, um celular erguido registrou os dois próximos demais. A foto ficou um pouco tremida, mas dava pra reconhecer o rosto dele e o dela. O carro da Mayra já tinha saído quando Beto finalmente engatou a ré.
