A chuva batia nas janelas da mansão no Morumbi quando Camila pegou a foto antiga de novo. A imagem mostrava o pai pequeno, de short puído, parado na frente de uma casa simples de tijolo. Ela ainda não sabia que aquela tarde ia forçar uma conversa que Lúcia tentava evitar havia anos.
A foto que não saía da cabeça
Camila desceu para a cozinha com a foto dobrada no bolso. Lúcia lavava louça devagar, o avental molhado na barra. A avó não virou quando a neta parou ao lado.
— Vovó, por que o papai nunca fala daquela casa?
Lúcia parou a torneira. A água escorreu um pouco antes de ela responder.
— Isso foi muito tempo atrás, filha. Não vale a pena remexer.
Camila sentiu que a avó mentia, mas não por maldade. Era o mesmo jeito de quem protege alguém mesmo quando dói.
O que Lúcia tentava guardar
— Ele estudou muito pra sair dali — continuou Lúcia, enxugando as mãos no pano. — A gente fez o que pôde na época.
Camila abriu a foto na bancada. O menino na imagem sorria de lado, como quem não sabia que a vida ia mudar tanto.
— Mas por que esconder? A senhora guardou isso todo esse tempo.
Lúcia olhou para o relógio na parede. Não respondeu. O prato que ela estava secando ficou na bancada, esquecido.
Marcelo entra e destrói
A porta da frente bateu mais forte que o normal. Marcelo apareceu na cozinha ainda com a pasta na mão. Viu a foto aberta na bancada e parou.
Ele pegou o papel sem pedir. Rasgou ao meio com um movimento seco. Os pedaços caíram na pia molhada.
Tem passado que a gente enterra porque tem vergonha de ter sobrevivido a ele.
Camila ficou quieta. Lúcia abaixou a cabeça. Ninguém discutiu. O som da chuva pareceu ficar mais alto.
O encontro que ela escondeu
Mais tarde, quando a chuva parou, Camila saiu para pegar um livro na portaria do prédio. Davi estava entregando um pedido no hall. Eles se olharam sem combinar.
— Não devia estar aqui — murmurou ela, mas ficou.
Davi entregou o pacote e guardou o troco devagar. Falou baixo sobre a faculdade dele, sobre a mãe que ainda brigava com os documentos do antigo comércio. Camila sentiu o peito apertar de um jeito novo. Escondeu o celular quando o pai ligou. Não contou que estava ali, nem que o peito batia mais rápido perto daquele rapaz que o pai nunca aceitaria.
Os dois se despediram rápido. Davi subiu na moto e saiu. Camila ficou um minuto olhando a rua molhada antes de voltar para dentro. Ela já sabia que não ia conseguir manter isso só dela por muito tempo.
