Júlia servia o arroz quando Renato bateu o prato branco na mesa com força. A filha pequena se assustou e começou a chorar no quarto ao lado. Diego parou na entrada da sala, ainda com a chave na mão. Só mais tarde ele entenderia que aquele barulho era o som de algo que já se repetia havia muito tempo.
O prato batido na mesa
Júlia limpou as mãos no pano de prato e foi pegar a menina. A casa era pequena, os móveis apertados, e o cheiro de comida quente misturado com o calor de fim de tarde tornava tudo mais pesado. Ela voltou com a criança no colo e tentou acalmar ela murmurando baixinho.
Renato não esperou. Me serve direito, disse ele, empurrando o prato para o centro da mesa. Júlia olhou para o chão, ajustou a filha no braço e voltou para a panela.
A chegada de Diego
Diego fechou a porta devagar. Ele viera buscar Renato para um churrasco que o amigo tinha prometido, mas a cena na sala fez ele hesitar. Renato riu sozinho, como se aquilo fosse normal.
— Ela fica o dia inteiro aqui e ainda reclama que tá cansada — Renato falou alto, virando a cabeça para o amigo. — Você fica em casa o dia inteiro e ainda quer que eu tenha pena de você?
Júlia parou com a colher no ar. Não respondeu. A menina se mexeu no colo dela e choramingou de novo. Diego sentiu o desconforto subir pelo peito, mas ficou quieto.
O silêncio que ficou
Eles comeram quase sem falar. Renato contou uma história do trabalho, rindo sozinho da própria piada. Júlia só respondia quando precisava, sempre olhando para o prato ou para a filha. Diego notou que ela nunca levantava os olhos para o marido.
Quando o jantar acabou, Júlia levantou para lavar a louça. Renato foi até a geladeira pegar uma cerveja e ofereceu uma para o amigo. Diego recusou. Disse que precisava ir.
Na porta, Renato ainda ria de alguma coisa que tinha falado. Diego acenou e saiu. Na rua quente, ele parou um segundo e olhou para trás. Aquela casa não era o que Renato contava por aí. Ele decidiu que ia prestar mais atenção nas próximas vezes que visitasse.
