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Entre o Desprezo e o Amor — Capítulo 2: A panela e o silêncio

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Na cozinha apertada, Júlia prepara o jantar enquanto Renato observa sem ajudar. Diego nota o peso do silêncio e ouve a frase que muda tudo sobre o que ele achava do casamento do amigo.

Júlia mexia o arroz na panela apertada da cozinha, a filha pequena sentada no chão com um brinquedo quebrado. Renato estava encostado na porta, olhando sem oferecer ajuda. Diego, sentado à mesa, percebia o esforço dela e o silêncio que crescia no ar. O que ele ainda não sabia era que aquela noite mostraria o quanto o casamento dele com a amiga tinha virado rotina de humilhação no casamento.

A panela soltando vapor

O cheiro de arroz queimando um pouco preenchia o cômodo. Júlia baixou o fogo e tirou um prato do armário sem olhar para ninguém. A filha pediu água e ela serviu rápido, equilibrando tudo com uma mão só. Renato pigarreou, mas continuou ali, imóvel.

Diego se levantou para pegar um copo e parou perto do fogão. “Precisa de ajuda com isso?” perguntou baixo, só para ela. Júlia negou com a cabeça, sem sorrir. O vapor subia e molhava levemente seu rosto.

A conversa que não era pra ser ouvida

Mais tarde, enquanto a comida esfriava na mesa, Diego puxou Renato para o corredor. “Cara, ela tá sozinha com a menina o dia inteiro. Não dá pra dar uma força?” Renato riu, alto demais. “Se eu não mandar, ela não faz nada.” A frase saiu como quem conta uma piada velha.

Júlia ouviu do outro lado da parede. Parou com a colher no ar por um segundo, depois continuou servindo o prato da filha. Ela já tinha ouvido pior, pensou, e quis só terminar logo pra não ter que responder nada.

Renato voltou à mesa e sentou com o garfo na mão. “Não é, Ju? Você só se mexe quando eu falo.” Ele olhou para Diego, esperando que o amigo concordasse. Diego ficou quieto, mexendo o arroz no prato sem comer.

Depois do jantar

A filha dormiu cedo, cansada do dia. Júlia lavou a louça em silêncio enquanto os dois homens tomavam café. Diego observava os ombros dela curvados sobre a pia e pensava no que tinha visto no jantar anterior. Não era exagero. Era pior do que Renato contava.

Quando saiu, Diego carregava a ferramenta que tinha emprestado e uma certeza que não conseguia afastar. A rua estava escura, mas ele caminhou devagar, revendo cada olhar que Júlia tinha dado sem reagir. Renato não percebia o que estava fazendo ali dentro. Ou percebia e não ligava.

No caminho para casa, Diego parou num bar vazio e pediu uma cerveja. Pensou em voltar no dia seguinte, só para devolver a ferramenta e ver se Júlia estava sozinha. A dúvida ficou ali, quieta, enquanto ele terminava a bebida.