No bar da esquina, Renato falava da esposa como se resolvesse um problema de encanamento. Duas garrafas de cerveja vazias ficaram no meio da mesa de plástico. Diego não riu da última piada. Só depois, quando o sol já tinha baixado, é que ele percebeu que a amizade deles tinha começado a rachar ali mesmo.
As piadas que não colaram
Renato gesticulava com a garrafa na mão. Falava que Júlia reclamava demais do dinheiro, que não entendia o esforço dele para sustentar a casa. Diego mexia no rótulo da própria garrafa, sem responder. O barulho dos carros na rua abafava as vozes dos outros clientes.
— Ela não faz nada direito, irmão. Se eu não mandar, ela não faz nada — repetiu Renato, repetindo o que já tinha dito na cozinha no dia anterior.
Diego ergueu os olhos. A frase soou diferente longe de casa. Ele respirou fundo antes de falar.
A pergunta que não devia ter feito
— Desde quando você trata ela assim? — perguntou, baixo.
Renato parou de gesticular. Ficou olhando para o amigo como se não tivesse entendido direito. Depois deu uma risada curta, sem graça.
— Que isso, cara? É só conversa de homem. Você não viu uma esposa difícil, viu uma mulher cansada.
Diego sentiu o peito apertar. Quis responder que não era só conversa, que a cozinha apertada e o olhar de Júlia tinham mostrado outra coisa. Mas Renato já mudava de assunto, falando de futebol e de uma dívida que ia pagar logo. A cumplicidade que sempre existiu entre eles parecia uma coisa fina, prestes a rasgar.
A ferramenta esquecida
No dia seguinte, Diego pegou a chave de fenda que tinha deixado na casa do amigo. Bateu na porta por hábito, mas só Júlia atendeu. A filha estava dormindo no quarto dos fundos. A casa estava quieta de um jeito diferente, sem a voz de Renato mandando.
Ela olhou para a ferramenta na mão dele e deu um passo para o lado, sem saber se devia deixar ele entrar. Diego hesitou na soleira. Pensou em devolver logo e ir embora, mas ficou ali mais um segundo, reparando no prato que ainda estava na pia desde o jantar da véspera. Júlia secou as mãos no pano de prato e esperou ele falar.
