A casa estava limpa e iluminada, com a luz da tarde batendo nas paredes que antes ficavam escondidas atrás de pilhas de coisas. Uma camiseta enorme de Beto, daquelas que ele usava quando ainda pesava mais, estava dobrada sobre uma cadeira. Eles moravam ali, mais magros, mas o jeito de se olhar continuava carregado. Beto guardava as mensagens no celular desde o dia em que descobriu.
A camiseta que ninguém jogou fora
Beto passou a mão na camiseta dobrada. A malha estava gasta nos cotovelos. Lena entrou na sala com dois copos de água e sentou no sofá sem encostar no dele. A lanchonete continuava funcionando, mas eles tinham parado de postar fotos. Mayra mandava mensagem todo dia, perguntando quando voltariam a gravar.
— Eu vi as conversas dela com você — disse Lena, a voz baixa. — Ela queria que a gente brigasse mais.
Beto assentiu. Não tentou defender. Contou que Mayra mandava áudio elogiando ele sozinho, falando que Lena estava atrasada e que ele merecia alguém que acompanhasse o ritmo. Lena mostrou as mensagens que Mayra mandava pra ela, dizendo que Beto estava mudando rápido demais e que logo ia procurar outra.
O que Mayra escreveu de verdade
Eles juntaram os prints na mesa da cozinha. Mayra respondia em menos de um minuto sempre que um dos dois mandava algo triste. Estimulava ciúme. Sugeria que o outro estava traindo por trás das câmeras. Tudo pra manter os stories em alta.
Beto desligou o celular. Ficaram em silêncio um tempo. A casa não fazia mais barulho de embalagens rasgando nem de pratos sujos batendo. Só o ventilador e o trânsito lá fora.
Eu olho para quem a gente era e não vejo duas pessoas feias; vejo duas pessoas que ainda confiavam uma na outra.
Lena repetiu a frase baixinho, quase pra ela mesma. Beto olhou pra camiseta na cadeira de novo. Parecia que ela pesava mais agora do que quando ele vestia.
A pergunta que ficou
À noite, depois de lavar os poucos pratos que usaram, Beto parou na porta do quarto. Lena já estava deitada, olhando pro teto. Ele perguntou se ela ainda o amava. Lena demorou pra responder. Disse que precisava descobrir se o homem por quem se apaixonou ainda existia ali dentro, depois de tanta coisa que mudaram e de tanta coisa que esconderam.
Beto assentiu. Não pediu promessa. Deitou do outro lado da cama, deixando um espaço entre os dois. A casa ficou em silêncio outra vez, mas agora era um silêncio que eles podiam escolher preencher ou não.
