A chuva caía forte sobre o telhado de lata quando Lena parou na porta da mãe. A sala estava escura, só o barulho da água batendo no quintal. No centro da mesa, uma foto antiga de casamento estava rasgada ao meio, as bordas amareladas pelo tempo. Lena olhou para Dalva e sentiu que aquela conversa ia mudar tudo o que ela achava saber.
A casa da mãe na chuva
Lena tirou o casaco molhado e pendurou na cadeira. Dalva mexia em uma xícara de chá que já estava frio. A casa cheirava a umidade e a comida guardada. Nenhuma das duas falava há minutos.
— Mãe, eu preciso entender — disse Lena por fim. — Por que você sempre falava que eu ia me arrepender de emagrecer?
Dalva não respondeu de imediato. Olhou para a foto rasgada e suspirou.
A foto que nunca foi consertada
Ela pegou os dois pedaços de papel e juntou com cuidado, como se ainda tentasse consertar algo impossível. Na imagem, um homem magro sorria ao lado de uma mulher mais jovem. Lena reconheceu o pai que mal lembrava.
— Ele mudou depois que emagreceu — falou Dalva devagar. — Começou a ganhar dinheiro, comprou roupas novas, saiu mais. Um dia olhou pra mim e pros filhos e disse que não aguentava mais viver assim.
Lena sentiu o peito apertar. Era por isso que a mãe sempre soltava comentários ruins quando ela falava de dieta.
A frase que ninguém esperava
Dalva pousou a xícara e olhou a filha nos olhos.
Eu não tinha medo de você emagrecer, filha; eu tinha medo de você viver a mesma história que eu.
O silêncio que veio depois foi pesado. Lena não sabia se gritava ou chorava. Tudo o que a mãe fez — os bolos na hora errada, as piadas, o desânimo — agora fazia um sentido cruel.
Do outro lado da cidade, Beto estava na cozinha da lanchonete fechada. Tinha comprado um pacote de biscoitos e comido metade sem perceber. Quando olhou para as embalagens espalhadas, sentiu vergonha. A nova aparência que ele tanto queria também o prendia. Ele não conseguia mais comer sem pensar em quem ia ver.
O que sobrou depois da revelação
Lena saiu da casa da mãe com a cabeça latejando. A chuva tinha parado, mas o chão ainda estava escorregadio. No caminho para casa, ela pensou em Beto. Ele ainda não tinha voltado. A separação parecia definitiva, mas agora ela carregava uma dor que não era só deles.
Em casa, Beto deixou o resto do biscoito na mesa e sentou no sofá. A sala bagunçada parecia ainda maior sem Lena. Ele percebeu que os elogios que tanto procurava tinham custado o que ele mais gostava: a vida simples que os dois construíram. A recaída não era só comida. Era tudo o que ele não tinha resolvido.
