Nina estava no saguão abafado do Edifício Ferraz quando o apagão começou. O elevador parou no andar térreo com a porta entreaberta. O capacete vermelho rolou devagar para fora da cabine vazia e parou aos pés dela. Ela ainda não sabia que aquele objeto guardava o primeiro sinal de que Bruno não tinha sumido por conta própria.
O capacete na cabine vazia
Nina se abaixou e pegou o capacete. Era o de Bruno, o entregador que ela tinha visto na semana anterior. O nome dele estava escrito com fita adesiva por dentro. Otávio Ferraz apareceu no corredor, ajustando o paletó, e disse que a inspeção podia esperar até a luz voltar.
Ela ignorou e entrou na cabine. O painel estava quente, como se alguém tivesse mexido nele minutos antes. Otávio pediu que ela parasse, que os moradores não precisavam de alarde. Nina respondeu que só queria verificar o freio antes de ir embora.
O registro que não devia existir
Com a chave de fenda que carregava no cinto, Nina tirou a tampa do painel. Dentro havia um fio solto e um registro antigo de paradas. Uma linha dizia que o elevador tinha parado num ponto que não constava no projeto original. Quatro entraram, três saíram e esse elevador não parou em lugar nenhum. Ela leu a frase duas vezes.
Otávio deu um passo para dentro da cabine e tentou fechar a porta. Nina segurou o painel aberto. O ar ficou mais pesado. Ela sentiu que ele não queria que ela visse o resto da fiação.
As pancadas atrás da parede
Três pancadas secas ecoaram do fundo da cabine. Nina parou de mexer no painel. O som veio de trás da parede metálica, baixo mas claro. Otávio ficou imóvel, olhando para o teto.
Nina encontrou o botão de latão escondido sob uma placa. Estava marcado com um zero pequeno. Ela pressionou. O elevador tremeu uma vez e começou a descer devagar, mesmo sem luz. O capacete vermelho balançou no chão da cabine enquanto a porta se fechava.
