Lia não fazia ideia de que aquele copo caído no salão mudaria tudo. Vânia deixou o vidro escapar de propósito. O líquido se espalhou pelo mármore branco e brilhou sob a luz dos lustres. A babá ficou parada, olhando o chão molhado sem saber ainda o que aquilo significava.
O copo no mármore
Vânia estava de pé ao lado da mesa de centro, o vestido justo marcando a postura ereta. Lia segurava o prato de biscoitos que acabara de servir para Manu. O barulho do vidro quebrando fez a menina olhar para cima, curiosa. Vânia apontou para o chão com o dedo.
Limpa isso agora, disse Vânia, a voz baixa e firme. Lia sentiu o rosto quente. O emprego era tudo que ela tinha no momento. Manu apertou a boneca contra o peito e ficou quieta.
A ordem que não dava para recusar
Dona Vitória entrou no salão naquele instante. Usava um colar de pérolas que refletia a luz. Observou o chão, depois olhou para Lia. O silêncio durou alguns segundos. Vânia sorriu de leve, como quem espera aprovação.
Uma babá pode limpar o chão desta casa, mas não vai mandar no meu coração, falou Dona Vitória, devagar. Lia dobrou os joelhos e começou a recolher os cacos com as mãos. O líquido frio molhou a barra da saia dela. Manu se afastou um passo, sem entender direito o que estava acontecendo.
Vânia não se mexeu. Continuou de pé, assistindo. Lia guardou os pedaços no guardanapo e se levantou devagar. O cheiro de perfume caro de Vânia ficou no ar.
Sozinha no quarto dos fundos
Quando o salão ficou vazio, Lia foi para o quarto pequeno onde guardava as coisas. Fechou a porta devagar. Colocou a mão na barriga por baixo da blusa, sentindo o calor da pele. O bebê de Bruno ainda era segredo. Ela não sabia como contar, nem para quem.
O copo no salão tinha sido só o começo. Agora Lia precisava decidir até onde ia aguentar para proteger o que carregava dentro de si.
