Nina parou em frente à porta de vidro da gravadora com o violão no ombro. O sol do meio-dia batia forte na calçada e refletia no prédio. Ela tinha repetido o que ia dizer durante o metrô inteiro, mas agora as palavras pareciam pequenas. O que ela ainda não sabia era que a pior parte daquele dia nem tinha começado.
A chegada à gravadora
Os seguranças estavam do lado de fora, braços cruzados. Nina pediu para falar com Sabrina. Um deles riu baixo e disse que a agenda estava lotada. Ela mostrou o violão e explicou que a música que estava no rádio era dela. O segurança olhou para o violão coberto de adesivos e balançou a cabeça.
Do outro lado do vidro, Rômulo apareceu. Ele vestia terno escuro e carregava um copo de café. Olhou para Nina como quem vê uma barata no chão. Sabrina estava um pouco atrás, no corredor, sem se aproximar.
A discussão com Rômulo
Rômulo saiu e parou bem na frente dela. Falou baixo no começo. Depois a voz dele subiu. Chamou Nina de oportunista que queria aparecer à custa de quem já estava no topo. Dois funcionários pararam para olhar. Um terceiro filmou com o celular baixo.
Quem vai acreditar numa cantora de metrô quando do outro lado existe uma estrela?
Nina sentiu o rosto quente. Tentou mostrar o caderno datado, mas Rômulo mandou os seguranças a afastarem. A porta de vidro se fechou devagar. No reflexo, Nina viu a própria imagem sumindo enquanto a porta batia.
O caminho de volta para casa
Elas desceu a rua sem olhar para trás. O violão pesava mais que de costume. No ônibus, ninguém reparou nela. Chegou em casa, abriu o caderno na mesa da cozinha e ficou olhando as datas escritas à mão. Dona Maria perguntou o que tinha acontecido, mas Nina só balançou a cabeça.
Ela guardou o caderno. Sabia que a letra era dela. Sabia que a gravação caseira existia. Mas agora entendia que isso não bastava. Precisava de algo que mostrasse a data exata em que Rômulo recebeu a música. Algo que ninguém pudesse ignorar.
