Nina ajustava a alça do violão coberto de adesivos quando o rádio antigo soltou os primeiros acordes. Ela parou. A melodia era dela, palavra por palavra. A voz, porém, era de Sabrina Del Rey.
O rádio na estante
O quarto-e-sala ainda cheirava a café requentado. Nina se aproximou do aparelho e aumentou o volume. A letra era idêntica à que ela havia escrito num caderno três meses antes. Nenhuma diferença. Nem um verso alterado.
Ela olhou para o violão encostado na porta. O instrumento parecia menor de repente. Nina repetiu a música mentalmente, confirmando cada nota. Não havia erro. Aquela era sua composição.
A voz de outra
No estúdio climatizado do outro lado da cidade, Sabrina sorria para a equipe. O single acabara de bater um milhão de reproduções. Rômulo, ao lado dela, conferia os números no celular. Ninguém mencionava o nome de Nina.
Nina desligou o rádio. O silêncio do apartamento pareceu mais pesado que o barulho do metrô que ela enfrentaria dali a pouco. Ela pegou o telefone e buscou a música. O nome da autora aparecia como Sabrina Del Rey. Como isso foi parar lá?
Nina abriu a gaveta onde guardava os cadernos datados. As páginas estavam todas ali, com a data clara. Ainda assim, o mundo ouvia a canção como se tivesse nascido na boca de outra pessoa.
A decisão de ir até a gravadora
Ela guardou o violão no estojo e calçou os tênis velhos. O caminho até a gravadora não era curto, mas Nina não conseguia ficar parada. Precisava ouvir de alguém o que tinha acontecido. Ela não tinha contrato, não tinha nome, mas tinha a prova escrita.
Antes de sair, Nina olhou mais uma vez para o rádio desligado. A virada que ela buscava não viria sozinha. Era preciso ir atrás.
