Nina chegou à Estação Sé no horário de pico, violão nas costas e o chapéu pronto no chão. O corredor estava lotado como sempre, mas ninguém parava. O que ela ainda não sabia era que a expulsão do metrô viria antes mesmo de conseguir uma moeda.
O chapéu que ninguém olhava
Seu Jorge estava mais quieto que de costume. Ficou ao lado dela por alguns minutos, olhando o fluxo de gente que passava sem parar. Nina começou a tocar baixinho, a voz saindo rouca de tanta raiva guardada desde a gravadora. O chapéu permaneceu vazio. Um ou outro passageiro olhava rápido e seguia em frente.
Ela parou no meio da música. Não faz sentido continuar, pensou. Mas parou só um instante e recomeçou. Seu Jorge coçou a barba, sem saber o que dizer.
Funcionários se aproximam
Dois homens de uniforme apareceram no fim do corredor. Um deles chamou Nina pelo nome, o que já era ruim. Ela abaixou o violão. O outro homem apontou para o chapéu e disse que a administração tinha recebido queixas. Nina perguntou quais queixas. Nenhum dos dois respondeu direito. Falavam de “ordem superior” e “decisão já tomada”.
Seu Jorge tentou intervir. Disse que ela cantava ali há meses sem problema. Um dos funcionários olhou para o chão e repetiu que era melhor ela ir embora. Nina sentiu o rosto quente. As pessoas ao redor fingiam não escutar, mas algumas paravam para ver.
A expulsão do metrô
O bilhete impresso veio dobrado. “Proibida a apresentação neste ponto a partir de hoje.” Nina leu duas vezes antes de guardar. Pegou o chapéu do chão de pedra, as poucas moedas chacoalhando. Primeiro roubaram minha música. Agora querem tirar até o lugar onde minha voz nasceu.
— Eles não vão conseguir calar tudo — murmurou Seu Jorge, mas a voz dele saiu baixa demais.
Nina guardou o violão e saiu sem olhar para trás. O corredor continuou lotado, o som de passos abafando qualquer coisa que ela pudesse ter dito.
Do lado de fora da estação
A rua estava úmida e barulhenta. Nina parou embaixo de uma marquise, encostou o violão no joelho e começou a tocar sozinha, quase sem volume. Poucas pessoas passavam. Ela só queria terminar a música e ir para casa. Foi quando um homem parou na frente dela, de terno simples, sem pressa. Ficou ali, ouvindo. Quando a música acabou, ele não aplaudiu. Apenas perguntou o nome da canção. Nina olhou para ele sem responder. O homem disse que se chamava Leo e que trabalhava com produção musical. Ela sentiu o estômago apertar. Não outra pessoa ligada àquela gente, pensou. Leo ficou ali mesmo assim, esperando ela falar alguma coisa.
