Nina ajustou o violão no ombro e começou a cantar baixinho. A marquise pingava água da chuva da tarde, e poucas pessoas passavam sem parar. O chapéu no chão já estava quase vazio. Ela só queria terminar a música e ir embora antes que alguém mais reclamasse.
A voz que parou o homem
Leo ficou ali, parado, com as mãos nos bolsos do casaco molhado. Nina olhou de relance mas continuou. A poça no chão refletia o violão, o chapéu e a silhueta dele bem na frente. Seu Jorge, do outro lado da calçada, observava sem se aproximar.
Quando a música acabou, Leo não aplaudiu. Apenas disse que ela cantava diferente de todo mundo que ele já tinha ouvido. Nina guardou o violão no estojo sem responder. Ela já desconfiava de elogios assim.
O produtor que apareceu
— Eu trabalho com música — ele falou, direto. — Produzo há alguns anos.
Nina parou de fechar o estojo. A frase ficou no ar. Produtor musical. Ela pensou logo na equipe que a expulsou da estação, nos vídeos que circularam, na música que roubaram. Leo notou a mudança no rosto dela e deu um passo atrás.
Seu Jorge cruzou os braços, ainda sem se aproximar. Nina apertou a alça do estojo. Ela queria só ir embora.
O que ele admitiu
Leo disse que podia ajudar a registrar as composições antigas. Falou que conhecia gente boa, que tinha estrutura para provar datas. Nina o encarou. Ele respirou fundo e completou que já tinha trabalhado com a equipe de Sabrina Del Rey.
O silêncio durou alguns segundos. A chuva pingava mais forte na marquise. Nina sentiu o peso do dia inteiro nas costas. Era exatamente o que ela temia.
— Eu sei o que eles fizeram — Leo continuou. — E sei que você tem as letras antes.
Nina não respondeu. Olhou para a poça que já refletia só o reflexo dela e do violão. Leo esperou. Ela pensou nos cadernos em casa, nas datas escritas à mão, na mãe que ia ficar preocupada. A ajuda que ele oferecia parecia real e perigosa ao mesmo tempo.
