Marta fechou a porta da farmácia às oito da noite, com a chuva batendo forte no vidro. Duas xícaras de café ainda estavam no balcão, frias. Ela procurou Caio porque precisava de uma conversa que não virasse acusação, mas o que ela ainda não sabia era que aquele encontro guardava uma virada que ia complicar tudo.
A farmácia que fechava
Caio trancou a caixa registradora sem pressa. Marta ficou perto da porta, molhada, sem saber direito o que dizer. Ele ofereceu outra xícara de café. Ela aceitou só para ter algo nas mãos.
— Você não parecia bem na última vez que nos vimos — disse ele.
Marta respirou fundo. Contou da briga com Bianca, das mensagens que Renato mandava pra duas ao mesmo tempo. Falou baixo, sem drama. Caio ouviu sem interromper.
O que ela não lembrava
Quando ela parou, Caio mexeu os papéis no balcão. Disse que tinha algo pra contar também. Ela o ajudou anos antes, no pior dia da vida dele. A esposa tinha morrido de repente. Caio perdeu a carteira no ponto de ônibus. Marta achou, viu o endereço e atravessou a cidade pra devolver com todo o dinheiro dentro. Ele nunca esqueceu o rosto dela.
Marta piscou, surpresa. Não se lembrava daquele dia. Caio sorriu de leve e disse que guardou o bilhete que ela deixou na carteira. Marta sentiu o peito apertar. Pela primeira vez em meses alguém falava dela como se ela ainda fosse uma pessoa inteira.
O impulso que veio rápido
A conversa continuou. Marta admitiu que não se reconhecia mais. Caio respondeu que ela parecia mais forte do que imaginava. A voz dele ficou mais baixa. Os dois se aproximaram sem perceber. O beijo aconteceu de repente, quase por descuido. Durou pouco. Marta recuou primeiro, assustada. O gosto do café ainda estava na boca.
Talvez o pior do desprezo seja acreditar que nunca mais alguém vai olhar para você com carinho.
Ela pediu pra parar. Disse que o casamento ainda não tinha acabado de verdade. Caio assentiu, mas não pediu desculpa. Os dois ficaram em silêncio um tempo, só ouvindo a chuva.
O que Renato viu
Marta saiu primeiro, com o casaco molhado. Caio fechou a farmácia minutos depois. Do outro lado da rua, Renato observava dentro do carro. Ele tinha seguido Marta desde a academia. Viu os dois saindo juntos e guardou a cena na cabeça. Não disse nada no momento. Apenas ligou o carro e foi embora, já pensando em como usar aquilo.
Nos dias seguintes, Renato começou a comentar com conhecidos que Marta andava diferente. Falava de uma confraternização na academia que estava marcando. Disse que queria mostrar um novo projeto. Marta recebeu o convite por mensagem, sem entender o motivo. Renato sorriu sozinho quando viu a resposta dela.
