Caio sentou no ponto de ônibus vazio quando o céu ainda estava escuro. Nas mãos, a foto rasgada e o envelope que achara no chão de casa. Ele leu as linhas várias vezes, mas as palavras não mudavam.
A carta que mudou o que ele sabia
O ônibus atrasou. Caio ficou ali, virando a fotografia entre os dedos. O homem na imagem sorria de leve, como quem tenta não mostrar que está cansado. Atrás, a data estava escrita à caneta: poucos meses antes da morte que a mãe sempre descrevera como repentina.
Ele guardou tudo de volta no envelope. O peito apertava de um jeito que ele não sabia nomear. Por que ela escondeu isso?
O que Lúcia tentou explicar
Quando chegou em casa, a mãe já estava na cozinha. Caio colocou o envelope sobre a mesa sem dizer nada. Lúcia olhou para o papel, depois para ele.
— Eu guardei porque sabia que ia doer — ela disse baixo. — Algumas coisas é melhor deixar quietas.
Caio não sentou. Ficou de pé, mãos nos bolsos. — Ele tentou voltar. Você sempre falou que ele foi embora e nunca mais deu notícia.
Lúcia secou as mãos no pano de prato. O olhar dela estava cansado, igual ao da foto. — Eu achei que era melhor pra você não carregar isso também.
Minha vida inteira começou com uma mentira
Caio saiu de novo sem almoçar. No ponto, o sol já batia forte. Ele tirou a foto mais uma vez. A data não mentia. O pai dele tinha tentado encontrar a família pouco antes de morrer. Tudo que ouvira na infância — a partida sem explicação, o silêncio depois — agora parecia incompleto.
Ele murmurou para si mesmo: Minha vida inteira começou com uma mentira.
Do outro lado da cidade, Augusto leu o relatório que o investigador entregara de manhã. O nome do pai de Caio aparecia nos arquivos antigos da empresa. Ele havia trabalhado para a família Vasconcelos por quase dez anos.
