Na casa dos Ferreira a chuva caía sem parar naquela noite. Lúcia ouviu o barulho surdo da caixa velha batendo no chão e congelou. O que ela ainda não sabia era que uma carta ficaria esquecida ali, pronta para ser encontrada na manhã seguinte.
A caixa que caiu durante a tempestade
Lúcia ajoelhou-se rápido e começou a recolher as cartas amareladas. Algumas tinham o papel mole de tanto tempo guardado. Ela empilhava tudo de volta na caixa quando ouviu o passo de Dorival no corredor. Ele não podia ver isso agora.
Dorival parou na porta do quarto e olhou para a caixa no chão. A chuva batia na janela como se quisesse entrar. Lúcia fechou a tampa depressa, mas ele já tinha visto.
O confronto que Lúcia evitava
— Você ainda guarda essas coisas? — perguntou Dorival, voz baixa e cansada.
Ela não respondeu de imediato. Ajeitou o colchão, tentando ganhar tempo. Dorival entrou no quarto e fechou a porta.
— Eu pedi uma vez só. Você prometeu que ele nunca saberia quem tentou voltar.
Você prometeu que ele nunca saberia quem tentou voltar.
Lúcia ficou de pé devagar. As mãos tremiam um pouco. Fora isso, a casa estava em silêncio, só o barulho da água na calha.
Caio chega em casa
Caio entrou pouco depois, molhado, com a mochila no ombro. Cumprimentou os dois sem notar o ar pesado do quarto. Falou que o dia no trabalho tinha sido longo e que ia dormir. Lúcia serviu um prato de comida que ele comeu rápido, sem perguntar nada.
Dorival ficou na sala, olhando para a chuva. Lúcia voltou para o quarto e verificou debaixo do colchão de novo. Parecia tudo no lugar.
A carta que ficou no chão
Na manhã seguinte o sol mal tinha nascido quando Caio acordou. Ele passou pelo quarto dos pais para pegar um chinelo que tinha deixado lá. No chão, perto da cama, viu um envelope dobrado. Pegou sem pensar. O nome escrito na frente era do pai que ele nunca conhecera. A caligrafia era antiga, mas ele reconheceu o nome.
Caio ficou parado um instante, o envelope na mão. Não abriu. Apenas guardou no bolso da calça e saiu para o ponto de ônibus. A carta estava quente no bolso, como se queimasse.
