Caio acordou cedo demais e o ônibus atrasou. Chegou ao prédio do Grupo Vasconcelos com a camisa passada às pressas e a pasta apertada contra o peito. Helena tinha conseguido a vaga temporária no setor administrativo, mas ele ainda não entendia direito como aquilo tinha acontecido. O que ele ainda não sabia era que a pior parte daquele dia nem tinha começado.
O café derramado
No primeiro andar, uma mesa longa separava pilhas de relatórios. Caio procurou um lugar discreto, mas alguém deixou uma caneca perto demais da borda. O líquido quente escorreu por cima dos papéis e ele puxou tudo rápido, sujando a própria mão. Ninguém disse nada, só olhares rápidos e silêncio. Ele limpou o que pôde e sentou no canto, esperando instruções.
A primeira tarefa
Helena passou pelo corredor sem parar. Apenas um aceno curto, quase invisível. Caio não queria que ninguém pensasse que ele estava ali por causa dela. Quando o supervisor entregou uma planilha para revisar, ele aceitou sem reclamar. As horas passaram devagar, entre copos de água e o barulho baixo dos teclados.
A reunião que mudou o tom
À tarde chamaram todo mundo para uma sala pequena. O diretor falava rápido sobre números que não fechavam. Caio olhou a tela projetada e viu o erro logo de cara: uma coluna de custos duplicada por engano. Falou baixo no começo, depois repetiu quando ninguém respondeu. O erro era grande o bastante para gerar prejuízo. Depois da reunião, dois colegas agradeceram. Ele só repetiu o que já tinha pensado mil vezes: “Eu não quero que ninguém me dê lugar; só quero que parem de puxar a cadeira.”
O que Augusto viu depois
Augusto recebeu o relatório por e-mail à noite. O nome de Caio aparecia na lista de quem tinha revisado os números. Ele leu duas vezes, fechou a tela e chamou o funcionário da segurança interna. “Quero saber tudo sobre esse cara”, mandou, sem explicar o motivo. Caio, enquanto isso, pegava o ônibus de volta. Pensava na planilha corrigida e na possibilidade de ficar mais um mês. Em casa, uma tempestada começava a cair. Lúcia guardava cartas antigas debaixo do colchão e Dorival já olhava desconfiado para a porta do quarto.
