A luz do celular cortava a escuridão do apartamento como uma lâmina fria. Aline encostada na bancada de maquiagem, joelhos dobrados contra o peito, via os números despencarem na tela. Um cancelamento após outro, cada mensagem mais curta que a anterior.
O ring-light permanecia apagado no canto. O pincel que ela deixara cair horas antes continuava no tapete, esquecido. Dona Neuza havia levado o Theo dormindo para o outro lado do corredor, sem fazer perguntas. O silêncio do quarto pesava como dívida.
O telefone que não parava de tocar
Sueli ligou pela terceira vez. A voz dela chegava abafada, urgente, misturada ao barulho de secador ao fundo.
— Aceita, Aline. Três mil reais amanhã de manhã. O casamento é no Moraes, suíte nupcial. É só uma vez.
Aline apertou o pincel entre os dedos, resgatando-o do chão. A madeira parecia estranha na palma da mão. Ela já sabia o que significava dizer sim: voltar ao mesmo prédio onde um dia havia sido deixada na calçada.
Três mil reais e o gosto de cinzas
— Eu passei três anos construindo isso, e ela acabou com tudo em cinco minutos — murmurou Aline para o celular, a frase escapando antes que pudesse segurá-la.
Eu passei três anos construindo isso, e ela acabou com tudo em cinco minutos.
Sueli respirou fundo do outro lado. O aluguel venceria em quatro dias. O mercado não daria crédito novamente. Aline olhou para o pincel agora apertado com força, a ponta ainda manchada de base clara.
A mensagem que chegou sem nome
O celular vibrou com o comprovante de transferência. Metade adiantado. O nome do cliente era apenas um número. Aline digitou o sim sem responder a voz de Sueli. O cheiro do café frio na xícara ao lado subiu até ela, forte e amargo.
Ela se levantou devagar. A janela mostrava a avenida iluminada do outro lado do quarteirão. Amanhã de manhã ela estaria lá dentro, entre lençóis brancos e espelhos altos. Sem saber ainda quem estaria esperando no corredor.
