Letícia Vargas desfilava pelo salão de cristal da mansão em Ipanema, o vestido vermelho colado ao corpo como uma bandeira de vitória. Os convidados aplaudiam baixinho, taças de champanhe tilintando ao fundo, mas o silêncio era cortado por um envelope amassado que queimava no bolso do tailleur dela.
O cheiro de café queimado ainda pairava do incidente no Oceano, misturado agora ao perfume caro que ela usava para apagar qualquer rastro de fraqueza. A luz dos cristais caía sobre o tecido vermelho, criando reflexos que pareciam sangue fresco.
O vestido que escorre na passarela
Letícia parou no centro da sala, o salto alto preso no tapete por um segundo. Um murmúrio correu entre os convidados quando a carta caiu de seu bolso e se abriu no chão.
Os olhos dela se estreitaram. Valentina não estava ali, mas seu nome estava escrito em cada linha roubada.
Um homem de smoking se curvou para pegar o papel. Letícia estendeu a mão antes que ele tocasse.
A carta que ninguém devia ler
— Devolva — ordenou ela, voz baixa e cortante. — Isso não é para olhos alheios.
O convidado recuou. Letícia amassou o envelope contra o peito, o vermelho do vestido parecendo mais vivo sob a luz.
O silêncio pesado se espalhou como fumaça. Ninguém ousou perguntar, mas todos sabiam que a viúva guardava algo maior que orgulho.
A bastarda sonhava ser princesa… agora é só uma piada.
Letícia sorriu para a plateia, mas o sorriso não chegou aos olhos. O vestido escorregou um centímetro no ombro, revelando a marca de um dedo apertado.
Lucas vira o rosto
Do outro lado do salão, Lucas observava. O advogado ajustou a gravata, o olhar preso na mancha que começava a se formar na barra do vestido vermelho.
— Você vai mesmo queimar isso? — perguntou ele, voz quase inaudível.
Letícia não respondeu. Apenas guardou a carta de volta no bolso e continuou o desfile, passos firmes apesar do tecido manchado.
Ele escolheu o lado no instante em que pegou o celular e mandou uma mensagem curta para Valentina.
O café da manhã no Oceano parecia distante, mas o cheiro de queimado voltava sempre que Letícia piscava.
