Lia segurava a boneca de pano no quarto de Manu, tentando disfarçar o enjoo que subia pela garganta. O abajur jogava uma luz amarela sobre a barriga dela, onde o colar de coração descansava por baixo do uniforme. Ela sabia que precisava proteger o bebê até ter certeza de que Bruno enfrentaria a família. O que ela ainda não sabia era que alguém já estava prestando atenção nos seus passos fora daquela casa.
O quarto de Manu
Manu apertava a mão de Lia e não soltava. “Você não vai embora, né?” perguntou a menina, voz baixa. Lia sorriu sem responder direto. A boneca ficou entre elas, macia e quente. O enjoo passou por um instante, mas voltou quando ela se mexeu para arrumar o lençol.
Bruno apareceu na porta aberta. Observou as duas por um segundo antes de entrar. “Você está diferente hoje”, disse ele, voz baixa também. Lia levantou o olhar rápido, depois baixou. “É só cansaço”, respondeu. Ele deu um passo mais perto, mas parou quando ouviu passos no corredor.
A chegada de Dona Vitória
Dona Vitória apareceu no corredor e parou. Olhou para dentro do quarto sem entrar. Bruno recuou um passo, o rosto mudando de expressão. Lia ficou parada, a mão ainda na boneca. A mãe dele observou tudo em silêncio antes de seguir em frente. O colar de coração ficou escondido debaixo do tecido.
Mais tarde, sozinha no quarto dos fundos, Lia tocou a barriga e repetiu para si mesma o que já sabia. Essa criança pode nascer sem ouro, mas nunca vai nascer sem amor. A frase saiu em voz baixa, quase sem som. Ela guardou o colar de novo e saiu para o corredor.
A consulta médica
Lia saiu da clínica discretamente, o jaleco branco ainda visível por baixo do casaco aberto. Vânia estava do outro lado da rua, saindo de um carro. Parou ao ver a babá e estreitou os olhos. Lia não percebeu. Entrou no ônibus sem olhar para trás. Vânia ficou ali mais um minuto, o celular na mão, antes de seguir para a mansão.
Durante o jantar, Manu contou para a avó que Lia tinha ficado com ela o dia todo. Vânia sorriu do seu lugar, mas o olhar dela ia e voltava para a babá. Bruno perguntou se Lia estava bem. Ela disse que sim. O coração debaixo do uniforme continuava batendo forte, sem que ninguém soubesse ainda o que viria depois.
