Caio deixou o diploma enrolado em cima da mesa da cozinha, bem ao lado das contas atrasadas que a mãe havia empilhado na noite anterior. A luz fraca do amanhecer entrava pela janela pequena, iluminando o papel branco que parecia fora de lugar ali. Ele ainda não sabia que aquela discussão matinal iria mudar o rumo das coisas para todos eles.
A mesa da cozinha
Lúcia mexia o café na panela pequena, tentando fingir que o dia era normal. O cheiro de pão torrado misturava com o de umidade da parede que nunca secava. Caio sentou na cadeira de plástico, olhando o diploma sem desenrolar. Era a primeira coisa que ele conseguia por conta própria.
Dorival apareceu no vão da porta, já de roupa de trabalho mesmo sem ter emprego marcado. Limpou as mãos no pano que usava como cinto. “Hoje você vai atrás de serviço de verdade”, disse ele, sem olhar para o papel na mesa.
O diploma e o orgulho
Caio respirou fundo antes de responder. “Vou entregar currículo na área que estudei.” A voz saiu baixa, mas firme. Lúcia parou de mexer o café. Ela sabia que o filho acumulava dívidas do curso e que Dorival odiava qualquer conversa sobre faculdade.
“Estudo não paga comida”, soltou Dorival, batendo a xícara na pia. “Você vai perder a casa por causa de um pedaço de papel.” Caio sentiu o rosto quente. As contas pareciam maiores agora, ocupando quase metade da mesa.
Lúcia tentou sorrir. “Deixa ele tentar, Dorival. É o dia dele.” O padrasto não respondeu. Só ficou olhando o diploma como se ele fosse a causa de todas as dívidas.
A saída de casa
Caio enrolou o diploma de novo e guardou na mochila velha. Antes de abrir a porta, parou. “Se esse diploma não mudar minha vida, eu mudo sozinho.” A frase saiu seca, sem grito. Ele fechou a porta devagar, ouvindo o silêncio que ficou na cozinha.
A rua ainda estava molhada da chuva da madrugada. Caio caminhou até o ponto de ônibus pensando nas contas que a mãe pagava sozinha. O celular vibrou no bolso quando ele já estava quase chegando ao ponto.
A confirmação que mudou o dia
A mensagem era curta: entrevista no Grupo Vasconcelos, nove da manhã seguinte. Caio leu duas vezes. Era a primeira resposta depois de semanas enviando currículo. Ele guardou o telefone sem responder, sentindo o peso da mochila nas costas. O ônibus chegou lotado, como sempre. Caio subiu pensando que talvez o diploma pudesse valer alguma coisa, mesmo que ninguém na casa acreditasse.
