Caio chegou cedo no saguão do Grupo Vasconcelos. O piso de mármore refletia as luzes frias do teto e ele apertava o currículo dobrado no bolso do paletó. A fila de candidatos já se alongava até a recepção. Ele repetiu mentalmente as respostas que ensaiara no ônibus.
A conversa com a recrutadora
Quando chegou a sua vez, Renata nem olhou direito para ele. Leu o currículo em menos de um minuto e empurrou de volta.
— Não tem experiência. A gente precisa de quem já trabalhou em empresa grande.
Caio ficou ali parado. O papel voltou para sua mão como se nunca tivesse saído.
— Como eu provo que sei trabalhar se ninguém me deixa começar? — ele perguntou baixo.
Renata já chamava o próximo nome. Caio guardou o currículo de novo, sem força para insistir.
O olhar do corredor
Ele virou para sair. A bolsa batia na perna a cada passo. No corredor lateral, Helena parou ao lado da coluna de vidro. Tinha ouvido a frase de Caio e não seguiu em frente. Observou o jeito dele segurar o papel dobrado, como se ainda não quisesse jogá-lo fora.
Caio não a viu. Passou direto, olhando o chão. Helena ficou mais um segundo, depois caminhou até a mesa de Renata.
— Separa esse currículo — disse ela, apontando para o nome que acabara de ser descartado.
Renata hesitou.
— Ele não tem experiência.
Helena repetiu, mais curta:
— Separa mesmo assim.
O que ainda não sabia
Caio já estava na rua quando parou para ligar para a mãe. Disse que tinha sido rápido, que talvez ligassem depois. Não contou que o papel voltara para sua mão. No saguão, Renata colocou o currículo numa pasta à parte, marcando com um post-it amarelo. Helena ainda estava no corredor, olhando para o elevador que descia.
