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O Quarto dos Fundos — Capítulo 4: O rapaz do portão

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Davi deixou o capacete sobre o muro do portão e Camila correu para encontrá-lo. Marcelo apareceu no meio da conversa e humilhou o rapaz. Lúcia viu tudo e depois Davi recebeu documentos que ligavam …

O capacete preto de Davi ficou esquecido sobre o muro do portão, sob a luz fraca do entardecer. Camila correu até ele com um sorriso largo, ansiosa para contar que não queria mais esconder o namoro. O que ela ainda não sabia era que aquela conversa simples terminaria em algo que ninguém na casa conseguiria ignorar.

O encontro no portão

Camila parou perto da moto e mexeu no capacete com as pontas dos dedos. Davi tirou o outro da cabeça e sorriu de leve. Eles falaram baixo, como sempre faziam quando ele vinha entregar algo ou só passar. Ela contou que tinha brigado com o pai de novo por causa da avó. Ele ouviu calado, balançando a cabeça.

— Eu quero que todo mundo saiba — disse ela. — Não aguento mais fingir.

Davi olhou para o chão. Ele queria ficar perto dela, mas sabia que as coisas não eram simples. A mãe dele ainda guardava mágoa do que Marcelo tinha feito anos atrás. Camila não sabia disso tudo.

A discussão que explodiu

Marcelo apareceu de repente, vindo da garagem. Parou no meio do caminho quando viu os dois. O rosto dele mudou na hora. Ele olhou Davi de cima a baixo, reparando na jaqueta simples e na moto parada ali.

— O que esse rapaz está fazendo aqui de novo? — perguntou, voz baixa e cortante.

Camila tentou explicar, mas o pai não deixou. Começou a falar do trabalho de entregador, da roupa, da origem. Disse que gente daquele tipo não entrava na casa dele. Davi ficou quieto no começo, mas depois respondeu curto. Lúcia, que estava na janela da sala, saiu e parou perto deles.

Pobreza nunca me assustou; o que me assusta é gente pobre de caráter.

Lúcia disse isso olhando direto para o filho. Marcelo ficou vermelho, mas não respondeu. Virou as costas e entrou de novo na casa.

O que chegou depois

Camila correu atrás do pai, pedindo que ele parasse. Davi ficou sozinho no portão por uns minutos. Depois pegou o capacete e foi embora. Quando chegou em casa, a mãe dele estava esperando na sala. Ela entregou uma pasta velha, cheia de papéis amarelados.

Davi abriu devagar. Dentro tinha cópias de contratos e notas antigas. O nome de Marcelo aparecia várias vezes, ligado à compra que tinha acabado com o pequeno comércio da família dele. Ele leu tudo em silêncio, sentindo o peso de cada página. A mãe só disse que era hora de guardar aquilo com cuidado.

Do lado de fora, a noite caía sobre o Morumbi. Em algum lugar da mansão, Lúcia lavava a louça sozinha, pensando na dignidade que tinha tentado ensinar ao filho e que via agora em outro rapaz.