Na manhã seguinte, as oito moedas continuavam espalhadas sobre o balcão de madeira clara. Bel as viu assim que abriu a porta da cafeteria e parou um segundo antes de recolher tudo. O dia ainda nem tinha começado de verdade quando Fifi apareceu de novo.
As moedas esquecidas no balcão
Bel juntou as moedas uma por uma e guardou na gaveta. O som seco do metal contra a madeira pareceu mais alto do que era. Ela já sabia que Fifi não tinha voltado só por chá na noite anterior. A pergunta sobre o prédio ainda ecoava na cabeça dela.
Tião chegou pouco depois, limpando as mãos no avental. Ele viu o rosto de Bel e não precisou perguntar o que tinha acontecido.
A cliente que pede mais do que paga
Fifi entrou por volta das dez, já falando alto com alguém no celular. Pediu três fatias de bolo, um cappuccino extra grande e um suco natural. Quando chegou a hora de pagar, tirou do bolso um maço de notas pequenas e algumas moedas. Deixou tudo sobre o balcão sem contar.
Bel olhou o valor e viu que faltava quase a metade. Tião, atrás dela, apertou o pano que segurava.
— Isso não dá, dona Fifi — disse Tião, voz baixa mas firme. — Falta bastante.
Fifi sorriu sem tirar os óculos escuros. — Ah, mas eu sempre pago. Vocês é que são complicados. — Ela virou para os clientes que esperavam na fila e falou mais alto: — Aqui o troco é problema de quem serve, não de quem come.
Quem joga moeda no balcão também joga respeito no chão.
Bel sentiu o calor subir pelo rosto. Queria pedir para Fifi sair, mas os clientes olhavam. Ela só assentiu e completou o valor com o próprio dinheiro.
O que sobra depois do constrangimento
Fifi comeu devagar, comentando em voz alta que o bolo estava seco e o café fraco. Tião ia até a mesa duas vezes, mas Bel o segurou pelo braço toda vez. Não dá pra brigar agora, ela pensou. Quando Fifi terminou, levantou devagar, ajustou a bolsa e caminhou até a porta.
Antes de sair, parou um instante na calçada. Tirou o celular do bolso, apontou para a fachada da cafeteria e tirou duas fotos rápidas. Depois digitou algo e enviou. O recibo do pai dela já estava com o advogado. Só faltava juntar mais imagens para mostrar que o lugar estava caindo aos pedaços.
Bel, do balcão, viu o gesto mas não entendeu o que significava ainda. Tião limpava a mesa onde Fifi tinha sentado e resmungava baixo. O dia seguia como se nada tivesse mudado, mas a vergonha ficou pairando no ar junto com o cheiro de café.
