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A Dona da Razão — Capítulo 1: A cliente depois da última xícara

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Bel já tinha virado a última xícara quando Fifi bateu no vidro. A pergunta sobre o prédio veio depois do chá, e Bel sentiu que algo maior estava por trás daquela visita.

Bel terminava de enxugar a última xícara quando ouviu a batida no vidro. As cadeiras já estavam empilhadas sobre as mesas, a luz âmbar da rua entrava pela vitrine e a cafeteria parecia vazia de propósito. Fifi parou do lado de fora, bolsa no braço, olhando para dentro como se o horário não valesse para ela.

A xícara que restou

Bel abriu a porta só um pouco. “Já estamos fechados, dona Fifi.” A mulher entrou mesmo assim, empurrou o ar com a mão e foi direto ao balcão. “Uma xícara de chá, por favor. Não vai demorar.” Bel olhou para o relógio, depois para a xícara que ainda segurava. Colocou-a de volta na pia e foi preparar o pedido.

Fifi sentou-se no único banco que ainda estava no chão. Falava enquanto Bel enchia o bule. “Você sabe que esse bairro está mudando, né? Tudo valorizando. Quem não acompanha fica para trás.” Bel serviu o chá sem responder. O cheiro subia devagar, misturado com o cansaço do dia inteiro.

O que ela perguntou depois

Quando terminou de beber, Fifi ficou olhando as paredes. “Essa cafeteria é da sua família há muito tempo?” Bel secou as mãos no pano. “Desde minha mãe.” A mulher assentiu, como se guardasse a informação. “E o prédio? Também é de vocês desde sempre?” Bel sentiu o peso da pergunta, mas respondeu curto. “O imóvel é nosso.” Fifi sorriu pequeno, pagou e saiu sem pressa.

Bel trancou a porta e apagou a luz do balcão. A xícara que tinha lavado pela última vez ficou sozinha ali, ainda úmida. Ela já desconfiava que aquela visita não era só por chá.

“Ser cliente não dá a ninguém o direito de ser dona dos outros.”

Bel guardou a xícara no armário e foi embora. Do lado de fora, a rua estava quieta. Só depois, quando o dia seguinte começou, é que entenderia por que Fifi tinha perguntado sobre o imóvel.