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O Quarto dos Fundos — Capítulo 2: A cama atrás da cozinha

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Lúcia aceitou o quarto pequeno para evitar briga, mas Camila encontrou uma foto antiga que o pai nunca mencionou. O passado que Marcelo queria enterrado começava a aparecer.

Lúcia acordou cedo, como sempre, mas aquela manhã o cheiro de café não vinha da cozinha grande. Vinha de um cômodo apertado atrás da área de serviço, onde Marcelo mandara guardar uma cama simples e uma cômoda velha. Ela já desconfiava que o filho não ia ceder, mesmo com dois quartos de hóspedes vazios no andar de cima.

A chave que abriu o quarto dos fundos

Marcelo apareceu no corredor com uma chave enferrujada na mão. Entregou sem olhar a mãe nos olhos. “É aqui que você fica enquanto a casa estiver cheia”, disse. Lúcia pegou a chave, testou na fechadura e entrou. O espaço mal cabia a cama e uma cadeira de plástico. Ela não reclamou. Sabia que reclamar só pioraria.

Camila desceu as escadas ainda de pijama e parou na porta. “Avó, isso aqui é absurdo. Tem quarto melhor lá em cima.” Lúcia arrumou o lençol com calma. “Deixa, filha. Não quero briga hoje.”

O pedido que virou ordem

Marcelo voltou do escritório com o celular na mão. Viu as malas de Lúcia ainda no corredor e parou. “Leva tudo de volta pra lá”, mandou a uma das empregadas. Camila interveio. “Pai, ela não é funcionária. Pode ficar num quarto normal.” O pai olhou para a filha sem alterar o tom. “Quem mora de favor não escolhe onde dorme.” A frase ficou no ar. As duas empregadas baixaram a cabeça e pegaram as malas.

Quem mora de favor não escolhe onde dorme.

Lúcia ficou parada na porta do quarto pequeno. Não disse nada. Camila sentiu o rosto quente, mas também não respondeu. Só pegou uma mala de volta e levou para dentro sozinha.

O que estava guardado na mala

Enquanto dobrava as roupas, Camila viu uma pasta velha no fundo da mala. Abriu sem pedir licença. Dentro havia uma fotografia em preto e branco: Marcelo menino, talvez com oito anos, na frente de uma casa simples de rua de terra. A mãe aparecia ao lado, mais jovem, sorrindo de avental. Camila nunca tinha visto aquela imagem. Nem sabia que a avó já tinha morado num lugar assim. Ela guardou a foto no bolso da calça e fechou a mala devagar.

Lúcia entrou no quarto carregando um copo d’água. Camila pensou em perguntar ali mesmo, mas guardou a curiosidade. Amanhã ia chover, e ela queria entender primeiro por que o pai nunca falava daquela casa. Lúcia sentou na beirada da cama e suspirou. “Não mexe nas minhas coisas, hein?” Camila assentiu, mas a foto queimava no bolso. Marcelo passou pelo corredor sem entrar. A porta ficou entreaberta, deixando entrar um fio de luz do corredor principal.