Dona Lúcia ajustava a travessa de carne no meio da mesa grande quando Marcelo parou na porta do salão e falou baixo. A voz dele saiu firme, como se fosse algo combinado. O que ela ainda não sabia era que aquela ordem simples ia mudar o jeito dela olhar para o próprio filho.
O pedido antes dos convidados
Os investidores chegariam em meia hora. Marcelo vestia o paletó escuro e olhou a mãe de cima a baixo. Lúcia usava o vestido simples de sempre, o que ela achava decente para servir em casa. Ele respirou fundo e disse que precisava que ela se apresentasse como a empregada.
Lúcia ficou quieta um segundo. Depois respondeu que já tinha preparado tudo e que os pratos estavam prontos. Marcelo repetiu, mais devagar: “Diz que você é a empregada. Eles não precisam saber quem você é de verdade.”
Ela segurou a travessa com as duas mãos. O cheiro da carne subia quente. Lúcia assentiu sem olhar para ele e foi até a cozinha.
Camila chega mais cedo
Camila entrou pela porta dos fundos com a mochila ainda no ombro. A aula tinha terminado antes e ela quis pegar carona com uma amiga. No corredor viu a mãe de Marcelo arrumando os copos com a cara fechada. A avó nunca ficava assim.
Camila parou na porta do salão. Viu o pai conversando com dois homens de terno. Lúcia servia o vinho sem falar nada. Quando um dos convidados perguntou quem era a senhora que atendia tão bem, Marcelo respondeu rápido que era a empregada da casa.
Camila sentiu o estômago apertar. Olhou para a avó. Lúcia não levantou os olhos do prato que colocava na mesa.
Depois que todo mundo saiu
Os carros dos investidores já tinham ido embora. A casa ficou em silêncio de novo. Lúcia lavava as mãos na pia da cozinha quando Camila apareceu atrás dela.
A menina ficou encostada na porta. Lúcia secou as mãos no pano e falou baixo, quase para si mesma: “Só volto a ser mãe quando a casa fica vazia?”
Camila não respondeu. Ficou olhando o chão de mármore. No dia seguinte ela ia começar a prestar atenção em tudo que acontecia dentro daquela casa.
