A audiência estava marcada para o dia de Santa Luzia, mas Joaquim não apareceu no horário. Renato esperava que o loteamento saísse antes de morrer. Eduardo esperava não ser igual ao pai. Ana Clara só queria ficar na terra da mãe.
O dia da audiência
O ventilador da sala rangeu sem parar. Renato ficou calado no canto, de terno escuro. Eduardo levantou e disse que ia depor contra ele. Firmino se mexeu na cadeira de plástico, o chapéu apertado nas mãos.
Joaquim não chegou. A bengala ficou em cima da cama da pensão. Firmino se levantou devagar. Ele admitiu em voz baixa que a digital era dele e que não sabia ler.
A porta dos fundos
A porta dos fundos abriu. Dona Marli entrou guiando Joaquim de terno emprestado. O juiz leu os papéis de novo. A escritura caiu por terra. A terra voltou para o nome de Joaquim e de Ana Clara.
À noite a casa ficou quieta. Ana Clara ficou sozinha com o porta-retrato na mesa da sala. Ela já tinha trocado a foto outras vezes, mas nunca tinha virado o papelão do fundo.
A carta que estava ali
O papelão se soltou fácil. Era uma folha dobrada, escrita a lápis. A letra da mãe, do hospital. “Seu pai não abandonou a gente, ele foi buscar remédio; se ele voltar, abre a porta.”
Tava aqui. Esse tempo todo, tava em cima dessa mesa. E eu nunca vi.
Ana Clara dobrou a carta de novo. A casa estava escura. Bateram na porta. Pela primeira vez ela perguntou o nome completo antes de abrir.
