Renato Vasconcelos Prado parou o carro preto na beira da estrada de terra vermelha. Olhou a placa nova da água potável que o filho tinha mandado instalar e desceu devagar. Ana Clara estava na porteira com um balde na mão quando ele pediu um copo de água. O que ela ainda não sabia era que aquela conversa ia deixar claro quem realmente mandava na família.
O carro preto na estrada
Era véspera da audiência, dia vinte e oito dos trinta. O sol batia forte no adobe das casas. Renato tirou o paletó, dobrou com cuidado e ficou só de camisa branca. Pediu o copo como quem pede favor, voz baixa, educada. Ana Clara foi buscar água na torneira nova. Quando voltou, ele já estava encostado no mourão, olhando a comunidade como quem avalia um terreno.
— A água está boa — disse ele depois de beber. — Meu filho fez um bom trabalho aqui.
Ana Clara não respondeu. Segurou o balde contra o quadril e esperou. Renato devolveu o copo vazio em cima do mourão. A marca dos dedos ficou na superfície de vidro.
Quanto a senhorita quer
Ele falou do pai dela como se o conhecesse de perto. Chamou de Joaquim da lavoura, apelido que ninguém mais usava desde que o homem sumiu. Ana Clara sentiu o peito apertar, mas ficou quieta. Renato continuou, voz calma, sem pressa.
Quanto a senhorita quer para sumir da vida do meu filho?
Ele mencionou números, datas antigas, cinco famílias que aceitaram ajuda em 2014. Disse que era simples, que bastava ela pegar o dinheiro e ir embora antes da audiência. Ana Clara serviu mais água, devagar, sem olhar para ele. O copo encheu até transbordar.
Eduardo chega no meio
O carro de Eduardo parou atrás do preto. Ele desceu rápido, sem entender direito o que via. Renato continuou falando como se o filho não estivesse ali. Disse que o pai dela nunca chegaria a tempo, que os papéis estavam certos e que tudo terminaria no dia seguinte. Ana Clara olhou para Eduardo. Ele ficou vermelho, mas não gritou.
Eduardo falou baixo primeiro, depois mais firme. Disse que ia depor na manhã seguinte contra o próprio pai. Que a digital no cofre desmontava tudo. Renato ouviu sem mudar a expressão. Só respondeu que não tinha problema nenhum, porque Joaquim não ia chegar a tempo de qualquer jeito.
Ana Clara largou o balde no chão. O copo de vidro ficou em cima do mourão, vazio, com a marca dos dedos de Renato marcada bem no meio. Eduardo não se mexeu. O silêncio da comunidade pareceu durar horas.
