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Águas de Santa Luzia — Capítulo 9: Ele me reconheceu pelo jeito de pisar

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Joaquim tocou o rosto da filha no salão da associação e reconheceu a cicatriz do arame. Quando ela falou o sobrenome Vasconcelos, ele contou o que assinou sem ler para pagar o tratamento da mãe.

Joaquim não esperava que a filha fosse tão longe. No salão da associação, o ventilador de teto girava devagar, movendo o ar quente sobre os feixes de piaçava espalhados pelo chão. Ana Clara ficou parada na porta, olhando as mãos dele amarrando as vassouras sem precisar ver. O que ela ainda não sabia era que a pior parte daquele encontro nem tinha começado.

O toque no rosto

Ele se levantou devagar, a bengala encostada na mesa. Os dedos calejados subiram até o queixo dela, depois nas maçãs do rosto, traçando o formato que doze anos não apagaram. Ela ficou quieta, deixando ele confirmar o que já sabia. O cheiro de piaçava misturado com suor era o mesmo da oficina.

— Você cresceu — murmurou ele. — Mas o jeito de ficar parada é igual.

A cicatriz que ele reconheceu

Quando a mão desceu pelo braço, parou na marca fina no antebraço direito. Joaquim passou o polegar devagar sobre a linha branca. Ana Clara sentiu o ar sair do peito. Era a cicatriz do arame farpado, dos nove anos, quando ela correu atrás do bezerro e caiu no pasto.

— Eu te reconheci antes de você falar, filha. Você pisa igual a sua mãe — disse ele, a voz baixa. Ele parou de respirar por um segundo quando ela contou o sobrenome Vasconcelos. O nome saiu da boca dela como quem solta uma pedra no poço.

— Esse homem estava dentro do carro que me buscou. Tinha um menino no banco de trás.

Joaquim contou do papel que assinou sem ler, achando que era indenização da lavoura. O dinheiro foi para o tratamento da mãe, que morreu sete meses depois do mesmo jeito. Ana Clara sentiu o chão do salão balançar. Tudo que ele escondeu para protegê-la agora estava ali, cru, entre os dois.

A ligação que mudou o que restava

O celular tocou no bolso dela. Era Eduardo. A voz dele saiu apertada do outro lado, como quem acabou de abrir algo que não deveria. Ele tinha mexido no cofre do pai. No lugar da assinatura na escritura, só tinha uma digital de polegar. Havia cinco nomes numa folha solta. O de Joaquim era o terceiro.

Ana Clara olhou para o pai, que ainda segurava o braço dela. O ventilador continuou girando, mas o ar parecia mais pesado. O que Eduardo descobriu não mudava o que tinha acontecido, mas mudava o que eles podiam fazer agora. Joaquim apertou os dedos uma vez, leve, como quem pede desculpa sem palavras.