Ana Clara desceu do ônibus com a foto do pai enrolada no bolso da calça. A pensão ficava no fim de uma rua sem calçamento, porta de ferro pintada de verde desbotado. Ela bateu duas vezes. A mulher que atendeu segurava uma vassoura de piaçava e não tirou os olhos do chão.
A porta verde da pensão
A mulher varria o corredor de taco enquanto falava. Disse que conhecia quase todo mundo que morava ali, mas precisava ver a foto primeiro. Ana Clara abriu a imagem com cuidado, o polegar tampando o canto amassado. A mulher parou a vassoura, inclinou a cabeça e sorriu de lado.
Ah, o seu Joaquim? O cego? Tá na oficina, minha filha. Amarra vassoura desde que chegou aqui.
Ana Clara sentiu o chão mover por baixo dos pés, mas ficou quieta. Pediu o endereço da oficina sem perguntar mais nada. A mulher apontou a esquina e voltou a varrer como se nada tivesse mudado.
A bengala encostada na parede
O quarto dele era o último do corredor. A porta estava entreaberta. Ana Clara viu a bengala branca com ponteira vermelha encostada atrás da maçaneta. No criado-mudo, um relógio de pulso parado marcava meio-dia e dez. Ela não entrou. Ficou só olhando o objeto que confirmava o que a mulher tinha dito sem emoção nenhuma.
Fechou a porta devagar e saiu. O cheiro de sabão de coco misturado com comida de panela seguia ela até a rua. Ela caminhou devagar, a foto agora amassada na palma da mão.
A oficina de vassouras
A associação ficava num salão grande, ventilador de teto girando devagar. Vários homens sentados em bancos baixos, mãos ocupadas com feixes de piaçava. Nenhum olhava para cima. Ana Clara parou na entrada, o coração batendo no ouvido. Procurou o rosto que guardava na memória desde os onze anos.
Ele estava no meio da mesa, dedos grossos enrolando o fio com precisão. O cabelo grisalho mais ralo que na foto, a camisa de botões desbotada. Ana Clara respirou fundo antes de chamar.
Joaquim.
A voz saiu baixa, quase um sussurro. O pai continuou trabalhando. Não virou o rosto, não parou as mãos. Em volta, só o barulho seco da piaçava sendo amarrada e o ventilador batendo no teto. Ana Clara repetiu o nome, mais alto desta vez. Ele nem piscou. O chão pareceu sair do lugar de novo, mas sem ruído.
