Firmino subiu no banquinho devagar, como quem já sabia que aquilo ia doer. A lata de bolacha estava no alto do guarda-roupa, coberta de poeira fina. Ana Clara esperava na sala, sem imaginar que as onze cartas dentro dela guardavam respostas que mudariam tudo o que ela sabia sobre o pai.
A lata de bolacha no quarto
Ele desceu com cuidado, a lata nas mãos. A unha preta do polegar marcava o metal. Era melhor ter deixado ali em cima, pensou. Mas Ana Clara tinha pedido, e ele nunca soube dizer não pra filha do compadre. Tirou a tampa. Dentro, onze envelopes amarelados, um do lado do outro, e no fundo uma almofada de tinta seca, rachada.
— São do teu pai — ele disse. A voz saiu baixa. — Uma por ano, desde que ele sumiu.
Todo mundo na venda
Marli juntou a comunidade na porta da venda antes mesmo do sol baixar. Queria ler as cartas em voz alta, achando que ia ajudar. Firmino ficou de pé ao lado da mesa, chapéu na mão, sentindo o chão quente nos pés descalços. Ninguém riu. Só o barulho do vento na estrada de terra vermelha.
Ana Clara abriu o primeiro envelope. A letra era do pai, datada de doze anos atrás. Firmino olhou pra frente, sem encarar ninguém.
O que Firmino guardou por vergonha
Ele contou devagar. Que Joaquim pediu pra ele assinar como testemunha no papel da venda. Que ele apertou o polegar na tinta achando que estava ajudando o amigo a pagar o tratamento da mulher. Que nunca abriu nenhuma carta porque não sabia ler as palavras.
Eu guardei onze anos de notícia do teu pai dentro de uma lata porque eu tinha vergonha de pedir pra alguém ler.
A última carta tinha quatro meses. O envelope era mais novo que os outros. Dentro, um endereço de pensão na capital e uma frase curta: “Se um dia ela perguntar, diz que eu fiz o que pude.” Ana Clara dobrou o papel com cuidado. Não chorou. Só guardou o endereço na palma da mão, como se fosse uma coisa frágil.
O ônibus das cinco
De madrugada ela já estava de pé. O ônibus parou na estrada vermelha, farol alto cortando a escuridão. Ana Clara subiu com a mochila leve e o papel dobrado no bolso. Firmino ficou na porta de casa, olhando o rastro de poeira que o veículo deixava. Ele não sabia que Ana Clara ia descobrir ali na capital uma coisa que ninguém na comunidade tinha coragem de falar em voz alta. O pai dela estava vivo, mas o que ela ia encontrar era bem diferente do homem que ela guardava na memória.
