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Águas de Santa Luzia — Capítulo 6: Ele jura que não sabia, e é verdade

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Ana Clara estendeu o mapa na mesa. Eduardo reconheceu a própria assinatura no contrato, mas parou quando viu a foto do pai dela. Ele admitiu que assinou sem ler.

Ana Clara parou no meio do terreiro com o mapa dobrado na mão. O sol batia direto nas costas dela, sem nenhuma sombra. Eduardo chegou andando devagar, a camisa já molhada de suor. Ele parou a uns dois metros e olhou para o papel que ela segurava.

O mapa da construtora

Ela estendeu o mapa na mesa de madeira que ficava entre os dois. O nome da empresa do pai dele estava impresso em letras pretas no canto. Eduardo olhou uma vez, depois outra. Ele reconheceu a própria assinatura no contrato da Fase 1 logo abaixo.

— Eu não entendo por que você tem isso — disse ele.

Ana Clara não respondeu de primeira. Serviu uma taça de água e colocou na mesa. A água já começava a suar e formar um círculo na madeira.

Ele jura que não leu

Eduardo sentou devagar. Olhou a taça mas não encostou. Ela queria que ele mentisse, só para poder odiar em paz. Ele respirou fundo e apontou para a assinatura.

— Eu assinei isso. Mas não li o que estava escrito embaixo. Meu pai mandou, eu confiei.

A voz dele saiu baixa. Ana Clara ficou em pé, braços cruzados. O silêncio entre eles era tão grande que dava para ouvir o vento passando pelas folhas secas do quintal.

Eu não assinei contra você. Eu só não li. E eu sei que é a mesma coisa.

Eduardo parou de falar. Os olhos dele caíram na foto que estava em cima da mesa, o porta-retrato simples com o homem de chapéu. Ele parou no meio da frase e apontou para o retrato.

O homem da foto

— Eu já vi esse homem. Não sei onde, mas já vi. Foi há muito tempo.

Ana Clara sentiu o peito apertar. Ela não esperava que ele reconhecesse o pai. Eduardo continuou olhando a foto, como se tentasse puxar a lembrança de algum lugar fundo. A taça de água continuava ali, intocada, o círculo de umidade crescendo devagar na madeira.

Ele levantou o rosto e falou mais baixo ainda.

— Existe um caderno no cofre do escritório do meu pai. De 2014. Tem nomes de meeiros. Eu nunca abri. Nunca tive coragem.

Ana Clara ficou olhando para ele. O sol não diminuía. Nenhum dos dois se mexeu. Eduardo só repetiu, quase para si mesmo, que não sabia o que estava assinando. E que isso não mudava nada do estrago que já tinha sido feito.