Marina fechou a porta do escritório atrás de si. A luz fraca da mesa de Gabriel mal iluminava o móvel de madeira escura. Ela colocou as duas metades da fotografia na superfície lisa, uma ao lado da outra, até que as bordas rasgadas se encaixassem de novo. Gabriel olhou para a imagem sem mexer um músculo do rosto.
A foto no escritório de Gabriel
— O que é isso? — perguntou ele, a voz baixa.
Marina sentou na cadeira em frente. O ar do cômodo cheirava a papel velho e café frio. Ela apontou para a foto recomposta.
— Você sabe o que é. Lívia me deu metade. A outra estava na sua gaveta. Quero saber o que aconteceu de verdade.
Gabriel passou a mão no queixo. Ele parecia cansado, não de sono, mas de carregar algo há anos.
O que Gabriel escondeu
Ele respirou fundo antes de começar. Contou que, cinco anos antes, um carro da família bateu em uma árvore na estrada de Campinas. Havia álcool envolvido. Gabriel assumiu a culpa na delegacia, pagou a multa e perdeu a carteira por um tempo. A imprensa nem soube.
— Eu fiz isso pra proteger a família — disse ele. — Se o nome certo tivesse saído, todo mundo sofreria. A empresa, a mãe, tudo.
Marina apertou os dedos no braço da cadeira. Ela já desconfiava que não era só ciúme de Lívia. Mas a recusa dele em dizer quem estava dirigindo doía mais que a mentira inicial.
— Tem coisas do meu passado que eu escondi porque achei que você nunca precisaria pagar por elas.
Gabriel se levantou, foi até a janela e ficou olhando o jardim escuro. Marina não respondeu. O silêncio entre eles era pesado, mas ela sentia que faltava algo. Ele tinha contado só o suficiente para parecer sincero.
A mensagem que chegou depois
O celular de Marina vibrou em cima da mesa. Ela olhou para a tela: número desconhecido de novo. A mensagem era curta: “Ele contou só metade. Pergunte quem realmente dirigia.”
Gabriel não viu. Ele ainda estava de costas. Marina guardou o telefone no bolso sem dizer nada. Pela primeira vez desde que casaram, ela se perguntou se o homem à sua frente ainda era o mesmo que ela tinha escolhido.
Enquanto saía do escritório, pensou em Bruna. A amiga sempre parecia saber um passo à frente. Talvez Bruna também guardasse uma metade de algo que Marina ainda não tinha visto.
