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Águas de Santa Luzia — Capítulo 5: O sobrenome escrito no rodapé do mapa

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Ana Clara recebe um mapa à noite na porteira e vê o sobrenome Vasconcelos Prado no rodapé. A data é anterior ao pneu furar, e a tinta vermelha começa a borrar com a chuva.

A chuva fina já batia na lataria do carro quando o farol parou na porteira. Ana Clara desceu descalça, pensando que era Eduardo voltando com alguma explicação. Não era. Uma mão estendeu um envelope branco entre as ripas e o carro deu ré sem uma palavra. O que ela ainda não sabia era que o nome escrito ali mudaria tudo no dia seguinte, sem precisar de grito nenhum.

A envelope na porteira

Ela voltou para dentro com o envelope úmido. Acendeu a lâmpada da cozinha e rasgou o papel. O mapa estava dobrado em quatro, com linhas vermelhas grossas cobrindo toda a comunidade, o poço e até a placa nova da água. A data impressa embaixo era de quatro meses antes do pneu furar.

Ana Clara passou o dedo nas linhas. A tinta já começava a borrar com a chuva que escorria do cabelo dela. Não sentia raiva ainda. Só um peso vazio no peito, como quando a gente descobre que já era tarde.

O sobrenome no rodapé do mapa

No canto inferior, no campo do adquirente, estava escrito Vasconcelos Prado. Ela leu em voz alta, devagar. O pneu não furou por acaso. Ele já tinha comprado a minha casa antes de me conhecer. O mapa escorregou um pouco da mão dela, a tinta vermelha se espalhando mais. Firmino tinha avisado que a escritura era coisa antiga, mas isso aqui era diferente. Era recente e com o nome inteiro.

Ela dobrou o papel devagar e guardou debaixo do porta-retrato do pai. A foto continuava ali, o rosto borrado de tanto tempo. Ninguém nunca tinha dito o sobrenome completo para ela. Agora não precisava mais.

De manhã na porteira

A caminhonete branca parou no mesmo lugar ao amanhecer. Eduardo desceu, a camisa já suada, e ficou olhando para a casa. Ana Clara não abriu a porta. Ficou atrás da cortina fina, vendo ele dar um passo, parar, dar outro. O mapa estava aberto na mesa, as linhas vermelhas ainda úmidas de ontem.

Eduardo chamou o nome dela uma vez, baixo. O vento levou a voz. Dentro da casa, Ana Clara pensou na foto do pai e na data do mapa. O silêncio dela já começava a apodrecer o ar, como sempre. Eduardo não sabia que o caderno de indenizações de 2014 ainda existia no cofre do pai dele, nem que o nome escrito no rodapé era só o começo do que ia aparecer.