Ana Clara empurrou a porta de madeira da venda e sentiu o cheiro de querosene misturado com sal. Dona Marli estava atrás do balcão, olhando para as vassouras penduradas como quem evita encarar alguém. O que ela ia dizer naquela tarde ia mudar o jeito de Ana Clara ver a própria mãe, mas ainda não era a parte mais pesada que viria depois.
A conversa que dona Marli adiou
Ana Clara parou perto do balcão de fórmica. Marli secou as mãos no avental e serviu um copo d’água sem pedir. A menina perguntou direto o que a mãe dela sabia sobre a escritura. Marli ficou quieta um tempo, mexendo num pratinho pequeno que estava no canto.
Todo dia treze, ela começou, a voz baixa. Dona Neusa vinha até aqui, acendia uma vela pra Santa Luzia e pedia pelos olhos de alguém. Nunca falou de quem. Só acendia, ficava uns minutos e ia embora.
O que a chama iluminava
A chama no pratinho estava parada, quase sem mover. Ana Clara olhou para as etiquetas de papel presas nos cabos das vassouras. Ninguém nunca lia aquelas letras miúdas. Marli respirou fundo e continuou. Neusa parecia cansada nos últimos meses, como se carregasse uma coisa que não conseguia largar.
Ana Clara sentiu o estômago apertar. Ela já desconfiava que a mãe guardava mais do que contava, mas ouvir isso agora doía de um jeito novo. Marli limpou o olho com o dorso da mão.
Contei. Que Deus me perdoe, minha flor, eu contei.
Marli disse que o homem de terno apareceu duas semanas antes do pneu furar. Perguntou quem morava no sítio da curva, anotou tudo num caderninho e pagou o café como se fosse gentileza. Ela respondeu porque era educada, só isso. Nunca imaginou que o nome ia virar escritura.
O que Eduardo assinava ao mesmo tempo
Na capital, o escritório de vidro estava frio de ar-condicionado. Eduardo estava sentado à mesa grande, com uma pilha de contratos da Fase 1 na frente. A assistente entregava folha por folha. Ele assinava sem ler, só virando as páginas. Disse que confiava nela pra revisar tudo. A assistente sorriu e guardou os papéis.
Ele não sabia que, naquele mesmo instante, na venda de Santa Luzia, Ana Clara estava ouvindo o nome da própria mãe sair da boca de Marli como um peso que ninguém mais queria carregar. Eduardo guardou a caneta no bolso do blazer azul e saiu pro elevador achando que o dia tinha corrido bem.
