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Águas de Santa Luzia — Capítulo 4: A vela que a mãe acendia todo dia treze

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Dona Marli contou o que a mãe de Ana Clara fazia todo dia treze na venda. A confissão veio junto com o nome do homem de terno que perguntou quem morava no sítio da curva.

Ana Clara empurrou a porta de madeira da venda e sentiu o cheiro de querosene misturado com sal. Dona Marli estava atrás do balcão, olhando para as vassouras penduradas como quem evita encarar alguém. O que ela ia dizer naquela tarde ia mudar o jeito de Ana Clara ver a própria mãe, mas ainda não era a parte mais pesada que viria depois.

A conversa que dona Marli adiou

Ana Clara parou perto do balcão de fórmica. Marli secou as mãos no avental e serviu um copo d’água sem pedir. A menina perguntou direto o que a mãe dela sabia sobre a escritura. Marli ficou quieta um tempo, mexendo num pratinho pequeno que estava no canto.

Todo dia treze, ela começou, a voz baixa. Dona Neusa vinha até aqui, acendia uma vela pra Santa Luzia e pedia pelos olhos de alguém. Nunca falou de quem. Só acendia, ficava uns minutos e ia embora.

O que a chama iluminava

A chama no pratinho estava parada, quase sem mover. Ana Clara olhou para as etiquetas de papel presas nos cabos das vassouras. Ninguém nunca lia aquelas letras miúdas. Marli respirou fundo e continuou. Neusa parecia cansada nos últimos meses, como se carregasse uma coisa que não conseguia largar.

Ana Clara sentiu o estômago apertar. Ela já desconfiava que a mãe guardava mais do que contava, mas ouvir isso agora doía de um jeito novo. Marli limpou o olho com o dorso da mão.

Contei. Que Deus me perdoe, minha flor, eu contei.

Marli disse que o homem de terno apareceu duas semanas antes do pneu furar. Perguntou quem morava no sítio da curva, anotou tudo num caderninho e pagou o café como se fosse gentileza. Ela respondeu porque era educada, só isso. Nunca imaginou que o nome ia virar escritura.

O que Eduardo assinava ao mesmo tempo

Na capital, o escritório de vidro estava frio de ar-condicionado. Eduardo estava sentado à mesa grande, com uma pilha de contratos da Fase 1 na frente. A assistente entregava folha por folha. Ele assinava sem ler, só virando as páginas. Disse que confiava nela pra revisar tudo. A assistente sorriu e guardou os papéis.

Ele não sabia que, naquele mesmo instante, na venda de Santa Luzia, Ana Clara estava ouvindo o nome da própria mãe sair da boca de Marli como um peso que ninguém mais queria carregar. Eduardo guardou a caneta no bolso do blazer azul e saiu pro elevador achando que o dia tinha corrido bem.