Ana Clara voltou da casa de Firmino com a imagem da unha preta ainda na cabeça. Entrou no sítio, acendeu a lâmpada fraca da sala e parou diante da mesa de madeira. O porta-retrato do pai estava ali, como sempre. O que ela ainda não sabia era que aquela noite ia mostrar uma coisa que mudava tudo que ela carregava há doze anos.
A noite com o porta-retrato do pai
Fechou a porta de madeira. O piso de cimento queimado estava frio sob os pés descalços. Sentou na cadeira velha e puxou o porta-retrato para perto. A foto mostrava o pai de camisa xadrez azul, parado na porteira do sítio, com aquela cara de quem ia voltar logo. Ana Clara falou baixo, como fazia todas as noites.
— Hoje Firmino falou do carro preto. Mas não quis dizer a hora. Disse pra eu perguntar pra dona Marli.
Passou o dedo na moldura. Doze anos olhando aquela foto e nunca tinha aberto o fundo. As travinhas de metal estavam enferrujadas. Forçou com a unha e uma cedeu. Depois a outra.
O que estava atrás da fotografia
Tirou o papelão grosso. Não olhou direito para ele. Virou a foto e viu a letra a caneta azul no verso: Pra minha Aninha. Quando eu voltar a gente planta de novo. O coração dela deu um salto. Era a letra dele, sem dúvida. Ela pegou a escritura que tinha chegado com o homem da pasta e encostou as duas folhas na luz da lâmpada. O jota do nome Joaquim era idêntico nas duas.
Não era falsificação.
Ana Clara encostou as costas na cadeira. Se ele assinou depois de sumir, então meu pai não morreu. A frase saiu sozinha, quase num sussurro. Ela ficou olhando o papelão que tirara do fundo. Tinha uma dobra no meio que ela não reparou. Deixou tudo em cima da mesa e apagou a lâmpada.
Na manhã seguinte, na venda
Dona Marli estava arrumando os sacos de feijão quando Ana Clara chegou. O balcão de fórmica estava limpo, mas o cheiro de querosene ainda pairava. Ana Clara pediu um refrigerante e ficou ali, encostada. Marli olhou para os lados, como se alguém pudesse ouvir.
— Um homem de terno esteve aqui duas semanas antes daquele pneu furar. Perguntou quem morava no sítio da curva e anotou tudo num caderninho.
Ana Clara apertou o gargalo da garrafa. Marli continuou, a voz baixa.
Eu falei que era você, filha. Não sabia que ia dar nisso.
Do lado de fora, o sol batia forte na estrada vermelha. Ana Clara guardou o resto do dinheiro no bolso e saiu. O papelão com a dobra ainda estava na mesa em casa, esperando.
