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Águas de Santa Luzia — Capítulo 2: O que o vizinho viu e nunca contou

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Firmino esperava no degrau quando Ana Clara chegou. Ele admitiu que um carro preto levou Joaquim, mas travou na hora exata e mandou ela procurar dona Marli.

Ana Clara parou no meio do pasto seco, o sol baixo pintando tudo de dourado. A porta da casa de Firmino já estava aberta. Ele estava sentado no degrau, como se soubesse que ela viria.

O degrau de Firmino

Ela se aproximou devagar, o cesto vazio balançando na mão. Firmino não levantou os olhos de primeira. Apertava a aba do chapéu de palha entre os dedos tortos, sem parar.

— Vim saber o que o senhor viu — disse ela. A voz saiu baixa, quase normal.

Firmino respirou fundo. O chapéu rangeu sob os dedos.

O que ele admitiu

— Seu pai não saiu andando, menina. Veio um carro preto buscá-lo de madrugada. Não era carro daqui.

Ana Clara ficou parada. O vento mexia nas folhas secas do pé de goiaba ao lado.

— Como o senhor sabe a hora exata?

Firmino travou. As mãos pararam de amassar o chapéu. Ele olhou para o chão, depois para o lado.

Eu já sabia, menina. Que Deus me perdoe, eu já sabia.

O silêncio ficou pesado. Ana Clara sentiu o peito apertar, mas não falou nada.

A unha preta

Ela insistiu mais uma vez. Firmino enfiou as duas mãos nos bolsos da calça de brim, como quem esconde alguma coisa.

— Vai procurar dona Marli. Ela sabe mais que eu.

Ana Clara olhou sem entender. A unha do polegar direito dele estava preta, suja de óleo ou de terra velha. Ela nunca tinha reparado nisso antes.

Firmino se levantou devagar e entrou. A porta não fechou de todo. Ana Clara ficou ali mais um pouco, o sol já quase sumindo atrás das árvores. Aquilo que ele não contou ainda pesava no ar, e ela sabia que não ia conseguir dormir enquanto não descobrisse o resto.