Ana Clara parou no meio do pasto seco, o sol baixo pintando tudo de dourado. A porta da casa de Firmino já estava aberta. Ele estava sentado no degrau, como se soubesse que ela viria.
O degrau de Firmino
Ela se aproximou devagar, o cesto vazio balançando na mão. Firmino não levantou os olhos de primeira. Apertava a aba do chapéu de palha entre os dedos tortos, sem parar.
— Vim saber o que o senhor viu — disse ela. A voz saiu baixa, quase normal.
Firmino respirou fundo. O chapéu rangeu sob os dedos.
O que ele admitiu
— Seu pai não saiu andando, menina. Veio um carro preto buscá-lo de madrugada. Não era carro daqui.
Ana Clara ficou parada. O vento mexia nas folhas secas do pé de goiaba ao lado.
— Como o senhor sabe a hora exata?
Firmino travou. As mãos pararam de amassar o chapéu. Ele olhou para o chão, depois para o lado.
Eu já sabia, menina. Que Deus me perdoe, eu já sabia.
O silêncio ficou pesado. Ana Clara sentiu o peito apertar, mas não falou nada.
A unha preta
Ela insistiu mais uma vez. Firmino enfiou as duas mãos nos bolsos da calça de brim, como quem esconde alguma coisa.
— Vai procurar dona Marli. Ela sabe mais que eu.
Ana Clara olhou sem entender. A unha do polegar direito dele estava preta, suja de óleo ou de terra velha. Ela nunca tinha reparado nisso antes.
Firmino se levantou devagar e entrou. A porta não fechou de todo. Ana Clara ficou ali mais um pouco, o sol já quase sumindo atrás das árvores. Aquilo que ele não contou ainda pesava no ar, e ela sabia que não ia conseguir dormir enquanto não descobrisse o resto.
