Kelly espalhou os extratos sobre a mesa da sala pequena. O círculo vermelho que Henrique havia feito em volta das datas repetidas chamava atenção. Lucas olhava em silêncio, os olhos fixos nas colunas de números. O que eles ainda não sabiam era que aquela marcação levaria a uma verdade que mudaria o jeito como Kelly via Lucas.
A mesa cheia de papéis
Henrique apontou para outra linha. “Olha aqui. O mesmo valor aparece no Bom Preço e na unidade da zona leste.” Kelly folheou o caderno dela, comparando. Lucas passou a mão no rosto. “Isso não é só Valdir.” O ar na sala ficou pesado. Ninguém quis ser o primeiro a dizer o nome que todos pensavam.
Kelly sentiu o coração bater mais forte. Ela já desconfiava que o problema era maior, mas ver a prova escrita mudou tudo. Henrique continuou marcando páginas. Lucas ficou quieto, os ombros tensos.
O que Lucas sabia desde o começo
“Você viu isso antes de me conhecer”, disse Kelly, a voz baixa. Lucas ergueu o olhar. “Vi sinais. Achei que ia resolver sozinho.” Henrique se levantou e foi buscar água, deixando os dois sozinhos. O silêncio entre eles parecia ocupar todo o espaço.
Kelly sentiu o chão faltar por um segundo. Você sabia que tinha algo errado e deixou gente como eu pagar a conta. A frase saiu sem ela planejar. Lucas não respondeu de imediato. Ele apenas assentiu devagar, como quem aceita que não tem como voltar atrás.
— Eu pensei que calar era proteger a família. Agora vejo que só protegi quem estava roubando.
Ela encostou as costas na cadeira. A atração que vinha sentindo por ele misturava com algo novo e dolorido. Lucas parecia menor ali, não o executivo que aparecera na porta dela dias antes.
A ligação que chegou na hora errada
O celular de Lucas vibrou. O nome de Tatiana apareceu na tela. Ele olhou para Kelly antes de atender. “Não agora”, murmurou e recusou a chamada. Mesmo assim, a mensagem chegou segundos depois: “Para com isso antes que piore para todos nós.”
Kelly guardou o caderno. “Sua irmã já sabe que você está aqui.” Lucas confirmou com a cabeça. “Ela vai tentar me afastar.” A paranoia pairava no ar. Cada barulho na rua parecia possível ameaça.
Henrique voltou com os copos. “Vamos precisar de mais cópias. E de alguém de fora que entenda contabilidade.” Kelly concordou. O cansaço pesava, mas também vinha uma espécie de alívio estranho. Saber o tamanho do problema era melhor que ficar no escuro.
Lucas ficou de pé. “Eu ainda quero que a família conserte isso.” Kelly não respondeu. O que ela carregava agora era a certeza de que qualquer passo ao lado dele teria esse peso. Do lado de fora, o dia já escurecia. Eles precisavam decidir o que fazer com o que descobriram antes que alguém decidisse por eles.
