Kelly parou na porta da cozinha e viu o pote de moedas quase vazio de novo. Dona Sônia tinha deixado uma nota de cem reais por cima, mas o gesto não era comum. O que ela ainda não sabia era que a pior parte daquela noite nem tinha começado.
A aliança dentro do pote
Quando Kelly virou o pote para contar as moedas, algo metálico caiu na mesa. Era a aliança de ouro da mãe, fina e gasta no lugar onde ficava o dedo. Ela reconheceu o pequeno defeito na borda, de tanto tempo que Dona Sônia a usara. O coração apertou. A mãe tinha vendido ou penhorado a única coisa que restava do pai para pagar a faculdade.
Kelly segurou a aliança na palma da mão e ficou ali, parada. O prato de arroz e feijão que Dona Sônia preparara mais cedo esfriava na mesa. Ela pensou em todas as noites em que a mãe fingira que estava tudo bem, que o dinheiro dava para as duas contas.
A conversa que não queria ter
Quando Dona Sônia entrou, viu a filha com a aliança e parou. O olhar dela era cansado, mas firme.
Perder uma aliança dói menos que ver você desistir da sua vida.
Kelly quis devolver a joia na hora. Falou que podia largar o curso, que arrumaria outro emprego mais rápido. Dona Sônia balançou a cabeça e disse que Valdir já tinha levado o nome dela, não ia levar o futuro também. A voz da mãe saiu baixa, mas sem espaço para discussão. Kelly guardou a aliança de volta no pote e ficou em silêncio por um tempo longo.
A noite que Lucas apareceu
Mais tarde, quando Kelly já tinha secado a louça e tentava estudar, ouviram uma batida na porta. Lucas estava ali, sem gravata, com uma pasta fina na mão. Ele pediu licença para entrar e falou que precisava conversar sobre o mercado. Kelly olhou para a mãe, que se afastou para o quarto sem fazer perguntas.
Lucas contou que sabia de diferenças de caixa que não batiam há meses. Admitiu que tinha visto números estranhos antes mesmo de conhecer Kelly. A voz dele saiu baixa, quase pedindo desculpa. Kelly sentiu o peito apertar de um jeito novo, mistura de raiva e alívio. Ela já desconfiava que ele guardava alguma coisa. Os dois ficaram sentados à mesa da cozinha por quase uma hora, falando baixo para não acordar Dona Sônia.
Antes de ir embora, Lucas deixou um papel com datas marcadas. Kelly fechou a porta e ficou olhando para o pote de moedas outra vez. A aliança continuava lá dentro, mas agora havia mais uma coisa para carregar. Ela pensou que a mãe estava certa sobre não desistir, só que o preço parecia subir a cada dia.
