Kelly saiu do mercado já escuro, o uniforme ainda cheirando a pão de forma e sabão. Matheus a esperava no estacionamento quase vazio, encostado no carro dele com o celular na mão. Ela achou que era só mais uma conversa sobre o caderno. O que ela ainda não sabia era que a gravação que ele guardava mudaria o rumo daquela noite.
O celular rachado no estacionamento
Matheus virou a tela na direção dela. A rachadura no meio não deixava ver direito, mas o áudio estava nítido. — Olha isso aqui, Kelly. Eu gravei sem querer umas semanas atrás, quando fiquei até tarde arrumando o estoque.
Ela se aproximou, sentindo o frio do asfalto subir pelas pernas. O vídeo mostrava Valdir sozinho, abrindo o caixa principal depois do horário de fechamento. Ele contava notas, separava algumas e colocava no bolso da calça. Depois fechava a gaveta como se nada tivesse acontecido.
Eu falei que tinha visto
— Eu falei que tinha visto. Agora você também vai ver — disse Matheus baixo, quase pedindo desculpa. Kelly passou o vídeo de novo. O gerente sorria para a câmera vazia, como se soubesse que ninguém estava olhando.
Ela sentiu o coração apertar. Se a gente mostrar isso agora, ele vai dizer que é montagem. Matheus balançou a cabeça. Ele queria mandar para o professor Henrique, queria que o vídeo virasse prova junto com o caderno. Mas Kelly sabia como Valdir trabalhava: uma gravação sem data ou testemunha podia virar motivo para demitir Matheus também.
Valdir já estava olhando
Enquanto discutiam se copiavam o arquivo ali mesmo, Matheus ergueu o olhar para o vidro do mercado. A luz da sala dos gerentes ainda estava acesa. Valdir estava parado perto da porta, braços cruzados, olhando direto para o carro deles. Não fez sinal. Só ficou ali, observando.
Kelly guardou o celular na bolsa sem dizer nada. Os dois entraram no carro e saíram devagar. Nenhuma mensagem chegou no grupo do mercado naquela noite. Mas Matheus contou depois que, no dia seguinte, Valdir passou a perguntar onde ele tinha estado depois do expediente.
Na cozinha de casa, Dona Sônia lavava louça em silêncio. Kelly abriu o pote de moedas e viu a aliança velha no fundo, a que a mãe nunca usava mais. Ela entendeu no mesmo instante que o sacrifício não era só dela. Mais tarde, quando já estava deitada, Lucas Albuquerque mandou uma mensagem perguntando se podia conversar sobre o Bom Preço.
